Problemas de Família Fale Comigo Dr. Nazar
Caro Dr. José Nazar Pode ser que esta carta pareça imprópria para esta coluna. Não se trata propriamente de uma questão de família. Pelo menos nas aparências. Mesmo assim vou insistir. Sou professora e tenho longa experiência de ensino com crianças que estão se tornando adolescentes. É uma idade terrível difícil de se lidar. Os médicos e os psicólogos a chamam de puberdade. Não é mais uma criança nem ainda adolescente. Trata-se de uma idade de transição. Durante muitos anos lecionei para crianças e para adolescentes. Nunca tive dificuldades com essas duas faixas etárias, com eles eu me sentia conduzindo as matérias com muita propriedade e firmeza. Parece-me que tanto as crianças quanto os adolescentes são transparentes, consigo chegar mais perto, ensiná-los a aprender a estudar. Sei dos limites, das dificuldades e que existe confusão de lugares: família, escola, educação, ensino e por aí vai. Sou escolada no assunto. O problema que me afeta é que não me sinto bem lecionando para alunos que estão na puberdade. Não sei por que me sinto insegura, com vergonha e, muitas vezes, me vejo acuada e com medo, daí só me resta reagir com muita irritação e autoritarismo. Não sei o que isso tem a ver comigo particularmente, com a minha história familiar. Sei que tem coisa aí, isso está se repetindo, e está me atrapalhando, pois me torno antipática com os alunos e com seus pais. O que posso dizer é que minha entrada na adolescência não foi nada fácil, pelo contrário, foi difícil demais. Tudo ficou esquecido, guardado no famoso baú da infelicidade. Época em que meu pai estava indo super bem e caiu na falência. Ele voltou a beber e a família se desmantelou. Minha mãe, sempre uma vítima, caiu num profundo estado de depressão e nunca mais se recuperou. Meu único irmão homem começou a usar drogas. O silêncio tomou conta da casa e de todos nós. Tive que cuidar de minhas duas irmãs mais novas. Meu pai, antes um herói, de repente se desmoronou, tornou-se uma pessoa frágil. Fomos morar na casa dos meus avós. Eu e minhas irmãs fomos à luta e encontramos nos estudos uma boa saída. Meu pai sempre lia muito. Por outro lado, parece que toda essa dificuldade familiar se deslocou para alguns pontos da minha vida como, por exemplo, sexual. Mas não estou escrevendo para falar da minha sexualidade. Quanto à questão escolar eu já me perguntei muito. Procurei olhar por diversas vezes nos meus espelhos mais íntimos e não vi nada. Conversei com coordenadores, discuti o assunto com psicólogos, com outros colegas, professores e professoras e não obtive respostas. Disseram que era besteira da minha cabeça, sempre fui boa professora. Ou eu estou doente ou eles são cegos e surdos, sei lá! Continuo estagnada. Essa idade me persegue. Entendeu? Pode me ajudar? Professora perdida na puberdade – é lógico, dos meus alunos!
Poder construir e testemunhar quão linda foi esta criança que você carrega Eu já não era mais criança. Mas, alguma coisa se perdera em mim, se desprendera de mim, e de meus pais também. Um luto que se realizaria dos pais da minha infância. Um luto que se realizaria nos meus pais da criança que eu teria sido para eles. Parece que tudo ficara para trás, à espera. Uma separação é necessária para que portas se abram para um novo e destacado encontro. Mudanças verdadeiras se anunciavam. Uma locomotiva hormonal apitava os sinais visíveis e palpáveis do porvir de uma diferença sexual, em todo o esplendor de sua chegada. Os preceitos de uma nova estação? Eu já havia abandonado aqueles pais que me serviram de suporte. Eles sustentavam uma infância colorida de conforto e de falsa inocência. O novo soprava o vento de algo distinto no mais fundo de minha alma. Uma ruptura sem retorno. Início de uma partida por onde uma verdade se inscreveria e não admitiria nenhuma negociação. Tudo se traduziria numa autêntica ebulição. Tão sério mas também lindo demais! Meu Deus, que medo de mim mesma nestas minhas transformações! Medo do sexual que se aninhava em minhas entranhas? Frente a frente comigo mesma, só me restava recuar. O silêncio quase ensurdecedor das trombetas de um vazio pleno de incertezas. E eu comigo mesma me veria somente sendo vista como uma menina, quase pronta para transitar nova perspectiva de desejos. Quase. Promessas silenciadas. Algo que grita e geme dentro de mim recrudesce na paralisia de uma latência muda, imberbe, sem eco. Um contrato não cumprido, o que poderia ter sido e que não foi: eis aí uma garota interrompida! Aqueles pais não puderam autenticar a passagem. O olhar e a voz dos senhores de meus dias me faltaram, restando apenas um espelho sem vida, adormecido, calado. Um espelho doente. Espelho já esmaecido que claudica no remorso de um fracasso anunciado. Estragaram minha festa! Minha raiva permaneceu guardada, e escondida no mais íntimo de meu ódio parental. Quieta! Você não vê que eles estão doentes da alma? Não grite, não fale, guarde dentro de si mesma o resto de sua vida. Espelho em desgraça. Rude, sem memória. Não me restitui o que me é devido. Palavras desvitalizadas que não ecoam o corpo oferecido a mim e que fundaria, ali, naquela minha família tão amada o que se tornaria condição para fundar novas gerações. Fui desqualificada. O anúncio borbulhante que então faria este meu corpo saltitar não vingou. De todo modo, houve um toque de recolher. O corpo, em seu fervor musical, permaneceu em retirada, não foi despertado, não se realizou. Por não ser autorizada, não me autorizei. Perdi-me numa interrupção. Perdi-me ali mesma sem saber, permaneci sem olhar. Sem nada!
Professora Perdida na Puberdade Você acertou em cheio ao endereçar esta carta a problemas de família. Sua carta tem muito a nos ensinar. Ela encontraria seu destinatário se você construísse uma sólida estrada por onde brotassem boas palavras que pudessem dizer das razões pelas quais seu ódio dirigido ao seu pai e à sua mãe permaneceu guardado sob o véu do pudor. Este ódio marca sua presença impedindo-a de progredir justo naquilo que você mais deseja e que sabe fazer de melhor. Ao ministrar aulas para estes alunos você se vê sendo ultrapassada por um emocional que atualiza a cena fantasmática de uma menina odienta, ressentida e invejosa daquilo do que se sentiu roubada, quando se preparava para entrar na adolescência. Não existe separação do psíquico e do social. A professora que apresenta dificuldades com alunos que estão na puberdade, está querendo dizer de uma dificuldade que lhe é particular frente à sua própria puberdade: aquilo que foi amargamente esquecido e amputado do seu mundo simbólico é deslocado sintomaticamente para seus alunos. Uma puberdade abandonada, tripudiada por questões patológicas destes pais. Estas questões estão presentes em nosso cotidiano. O problema é que não temos consciência destes conflitos e, por isso mesmo, nós os atualizamos junto à realidade que nos cerca: nos nossos trabalhos, na área de ensino, de empresas, na vida política, e da vida amorosa. Cada um à sua maneira, lida com a realidade a partir de nosso mundo psíquico, dos nossos sintomas. O sujeito que rege as ações de nossos dias não é o indivíduo, ele não é este ser unitário e indivisível, ao qual estamos acostumados a viver o cotidiano de nossos dias, dentro de uma consciência reflexiva, pautada numa lógica clássica que diz sobre o certo e o errado. O sujeito do inconsciente é o coeficiente estrutural de uma história que dá as diretrizes e os rumos do campo que designa o emaranhado dos desejos de alguém. Este sujeito é fruto da fala e da linguagem, ele é dividido pelos efeitos das palavras que dizem da sua existência. Ele é estranho a si mesmo e se faz pautar nas incoerências discursivas, que são determinadas por um dilaceramento paradoxal: sou onde não estou, estou justo ali onde não sou. Acreditem! Ele mesmo nem é aquilo que aparenta ser. Muitas vezes não temos controle de nossas ações e nossos atos. O importante é localizar a participação de cada um nos seus próprios atos, escolhas de sucessos e de fracassos. Neste ponto onde você se perde na puberdade – e, portanto, fracassa naquilo que melhor sabe fazer – você, sem saber, está salvando um traço do seu pai falido. Nesse sentido, cabe perguntar: de quê lugar da sua história você ensina ao ensinar para estes alunos frente aos quais, permita-me dizer, rivaliza e inveja? O sujeito da psicanálise é único, da ordem do singular. Ninguém escapa aos efeitos do inconsciente: todos os nossos gestos, as nossas escolhas, as nossas paixões, se escolhemos este ou aquele caminho, trata-se de uma ordem enunciada a partir de uma historicidade do inconsciente. Por isso mesmo todos os nossos atos são constituídos e demarcados pelo inconsciente, tanto em nossos erros quanto em nossos acertos, nos sucessos e nos fracassos. Até mesmo nas doenças provocadas. O inconsciente faz laço, faz liame social. O inconsciente carrega em sua essência o laço social que funda uma política, ele é a política singular de cada um, demarcada por uma sintomática. Mas veja bem, minha cara professora perdida na puberdade: normalmente falamos muito mais de crianças e de adolescentes, das suas particularidades e de uma especificidade de abordagem no mundo das relações. E é certo que temos uma margem maior de segurança no cenário das intervenções. O mesmo não acontece com aqueles que vivem no meio, que não são nem uma coisa nem outra. Os meninos e as meninas que se encontram no período da puberdade apresentam um comportamento excessivamente enigmático que se traduz como fechado, truncado e de difícil acesso nos relacionamentos. Trata-se de um momento de transição que é complexo demais, mas que pode apresentar boas mudanças com muita rapidez. Os sentimentos perturbados que você experimenta com estes alunos devem ser considerados como algo muito saudável. O fato de você se permitir reconhecer uma dificuldade é, poderíamos dizer, meio caminho andado. Você tem um material rico para ser analisado, colocado no laboratório, junto com um psicanalista. O que você sofre ao enfrentar alunos desta faixa etária torna-se signo de uma sensibilidade exemplar, como alguma coisa que pode se tornar fértil em sua vida, podendo lhe proporcionar um enriquecimento em seu cotidiano profissional, afetivo e erótico. Ou seja, trata-se de uma abertura em todos os sentidos de sua vida. Mas, e os outros professores? Porque é que eles não dão importância às suas queixas? Partimos da suposição que todo e qualquer professor apresenta dificuldades, que são particulares a cada um, brotando todas as vezes que se defronta com alunos que estão adolescendo. O problema é que eles recalcam, recusando-se a refletir sobre os mesmos e preferindo, em todo caso, passar envelopados em si mesmos como se nada estivesse acontecendo. Há alguns sentimentos que machucam e que não nos convém lembrar enfrentando-os cara a cara. Tanto meninos quanto meninas que transitam na exuberância do despertar de um corpo que se anuncia em seu porvir sexual, despertam em qualquer um de nós incômodos por onde se exacerbam todas as fantasias possíveis, fundamentalmente as sexuais. Também nos pais e nas mães. Sempre que um filho ou uma filha está adolescendo há uma mudança sintomática na conduta dos pais. Eles se afastam, tornam-se mais rígidos, ficam sem jeito frente à exuberância de um corpo evidenciando uma sexualidade nascente. Muitos ficam grosseiros nos toques e nos abraços. Já não existe mais aquela “boa” intimidade. As fantasias sexuais estão presentes tanto nos pais quanto nos filhos. Muitas interpretações emergem neste momento da vida de um sujeito. A família é a espinha dorsal de nossas vidas. O futuro de cada um de nós depende do desejo que está na origem da estrutura de uma família. A leitura que cada um fará daquilo que teria sido frente ao desejo de seus pais, permite a fundação de uma verdadeira transmissão. Isto é, não aquela em que se realiza pelas de satisfações das necessidades mas, a simbólica porque, leva em conta a presença de uma subjetividade que se instrui pela assimilação de uma lei sancionando o desejo, vale dizer, o fato de se insistir na vida. O elemento traumático na sua família é a incessante recusa de um amadurecimento. Há uma paralisia gozosa na posição subjetiva de dependência. O sujeito pensa: “Que lugar eu ocupo para o desejo de meus pais? O que eu represento para este desejo?” Neste, permaneci amputada dos graciosos traços de meu pai e de minha mãe, na constituição de minha sexualidade. Portanto, a família é a base nascente dos fundamentos dos traços particulares de cada um, filho ou filha, no enfrentamento de uma vida que não é fácil para ninguém. Ela é, por assim dizer, o espírito capaz de fazer brotar e sustentar seus rebentos. O encaminhamento da vida em suas escolhas amorosas e profissionais nasce, de toda maneira, desta célula elementar: de um encontro de discursos e de desejos entre um homem e uma mulher condicionando uma excepcional perspectiva de se tornarem, ou não, pai e mãe. O encontro de um homem com uma mulher será vital em seu verdadeiro endereçamento sexual, pois é daí que se constrói o desejo de criança, como uma ocorrência primordial do desejo do casal. O desejo de criança somente será legítimo se o encontro de um homem com uma mulher não se ater apenas ao deteriorado impulso animal, que redunda na banalidade da sexualidade como mera distonia de um ato sexual. Um filho, ou uma filha, nasce de um autêntico turbilhão de desejos e de discursos onde somente os bons amantes têm capacidade de criar. O futuro – eu diria brilhante, pois você o demonstra em sua carta – vai depender de um encontro consigo mesma naquilo que se perdeu, que permaneceu alijado de si mesma. Você certamente irá colocar “sua” menina para falar do ódio que está recalcado, colocando palavras verdadeiras em sua boca. O desejo de seu pai sucumbiu frente ao seu tornar-se menina. Você terá que inventar com suas próprias palavras: por que o desejo deste pai se retraiu, necessitou criar uma falência, deprimir-se, por que ele voltou a beber? Por que este pai não conseguiu sustentar o desejo desta primeira filha? Você, professora perdida na puberdade, tem um caminho muito longo a seguir. Um caminho que pode ser lindo se você, com suas próprias palavras, construir e testemunhar quão linda foi esta criança que você carrega e quão poderia ter sido linda a púbere que a atrapalha no seu trabalho e na vida sexual. Mas, será que nisto você está disposta a mexer, por exemplo, numa análise? José Nazar. Médico Psiquiatra e Psicanalista. Especialização e Mestrado (Universidade do Brasil – U.F.R.J). Psicanalista Membro da Escola Lacaniana de Psicanálise Brasília, Rio de Janeiro e Vitória. Membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e da Associação Psiquiátrica do Espírito Santo APES). Membro da Associação Médica do Espírito Santo (AMES). Editor Chefe da Companhia de Freud Editora. E.mail: doutorjosenazar@gmail.com – 21.96110365 PROBLEMAS DE FAMÍLIA Cartas para: problemasdefamilia@seculodiario.com Sábados www.seculodiario.com.br |