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  TABULEIRO SUCESSÓRIO  
     
  Escrito por DR. JOSÉ NAZAR
Publicado em 03/09/2009
 
     
 

                                   O Tabuleiro Sucessório           

  A política tem coisas que nem mesmo ela consegue explicar. O fato de seus representantes serem humanos, por si só, já diz muita coisa. O ser falante, esse que usa e abusa da linguagem e que aprende a discursar em sua solenidade, é singular. Este fato, que é traumático por excelência, dificulta aproximações de fidelidade de partes, de fiéis, de fé. Dificilmente faz coletivos capazes de alianças perduráveis. O laço que une um político a outro é o mesmo que os separa, na medida em que são os interesses que sinalizam esta ou aquela direção. São laços enigmáticos, sombrios demais.      

Sempre que se aproximam as eleições, temos, como ordem do dia, a assim chamada aliança política. Trata-se de algo dramático para os políticos, pois não é este ou aquele interesse que será capaz de mantê-los unidos e direcionados rumo a um objetivo. Rupturas. Uma desgraça! Ou tratar-se-ia mesmo de uma impossibilidade lógica? Se um político não consegue se aliar nem consigo mesmo, como pensar tal aliança? Ninguém sabe o que condiciona uma aliança política. Nem sempre esta condiz com o que teria sido proposto. Há uma resistência à ultrapassagem de um narcisismo de pequenas diferenças. Por isso mesmo, uma aliança política não faz tempo, não faz época, não conclui bodas, por exemplo, de ouro, de prata. Ela será sempre de penas. Basta que uma discordância tussa mais forte ou até mesmo sopre um pouco mais e ela voa para longe e para bem perto de outras possibilidades. Tudo se passa por ali, pelo vão de uma discordância que funda o estilo particular de uma verdadeira arte de governar.    

  Uma aliança política não é outra coisa senão o espasmo surrupiado de um escorpião liberal. Ela sussurra as mais ardentes promessas, que não se cumprem, sob os lençóis de uma discórdia estrutural. Será que fazemos ideia do que rola por aqui ou por ali, por debaixo destes lençóis tão pouco macios? Por debaixo do pano temos uma moral necessária que faz viger o andamento daquilo que teria sido proposto de saída. Os acordos têm sempre uma malícia que prima pelo poder unilateral: primeiro eu, mas, se sobrar algo, ainda assim serei eu a controlar. Isto sempre foi assim, e assim será, dirão as avós dos políticos que vingaram.

 Os políticos caminham no fio de uma enigmática navalha. Há, em todo caso, uma carência de suposição. Trata-se de uma avenida que é habitada por surpresas e estranhamentos para todos os que estão do lado de fora. O ritmo das alianças e das forças políticas, rumo a esta ou aquela eleição, tem o sabor de um gozo malicioso modulado por sentimentos de ódio. Político que é político não dorme. Quando dorme é porque está sonhando com a morte de seu opositor. É o ódio que sustenta as relações políticas. O amor, aí, é paralisante e causa de todos os erros. Trata-se de um inevitável interlúdio maquiavélico que escreve a tolerância de convivências transitórias. Então é isto: a política sustenta-se no patamar de uma tolerância transitória. O político é bobo quando acredita no amor, no se fazer amar, na estreita viela de um querer ser amado, ou seja, quando quer porque quer uma tolerância não-transitória. O político é bobo quando acredita nas juras de amor de seu semelhante!     

O político que pensa que é político, que acredita que ele mesmo é político, jamais irá alcançar a dimensão pública desta função: certamente ele não será um político, não poderá jamais suportar o insuportável desta função. Ele não porta a capacidade de poder sofrer, o inevitável de uma renúncia, que é necessária ao exercício da mesma. Esta seria então uma afirmação nova no palanque das realidades políticas. O bom político, senhores, está condenado ao tédio. Este é seu verdadeiro amor, sua maior paixão, sua extrema fidelidade partidária. Aqui, sim, se escreveria uma possibilidade. O tédio, nada mais que isto! Nem as esposas, mães de filhos de políticos, ninguém é capaz de entender esse sentimento, sequer as mães, que pariram e educaram seus filhos; sequer os denominados cientistas políticos e até mesmo os jornalistas. Todos esses, jamais entenderão o verdadeiro amor de um político. Por isso mesmo, esposas, mães, cientistas políticos, jornalistas, todos, em sua sobrevivência diária e de área, cada grupo, à sua maneira, não cessará de inventar uma solidão particular que se nutre de uma necessária ilusão. Mas, vejam, é o tédio e somente ele que é capaz de fascinar a alma de um político. O pai de um futuro político, este sim sabe de antemão. As avós, verdadeiras mães destes pais, estas que quase sempre jazem num quarto escuro para nunca mais serem incomodadas, carregam o testemunho das razões desta estranha paixão: a chave de um enigma indecifrável. O tédio, meus senhores, ama os políticos. Os políticos, em sua essência de respeito de uma vida pública, eles mesmos se tornam desde sempre escravos e fiéis servidores do tédio. Pobres políticos! O momento que celebra a amarração do acordo de uma aliança coincide justamente com a separação dos alcovites, das maledicências e dos embates a céu aberto. Uma separação entre aspas, em instância. Uma aliança de impossibilidades, é isso aí! Uma aliança que não deixa marcas.O que falar então de um processo sucessório? Mesmo porque inventaram que o poder não deve ser eterno. Eu não digo não pode. O processo sucessório é realmente o sublime momento que evidencia a carência dos políticos como seres passageiros. Quando um entra, isso se dá justamente porque o outro está saindo: há uma troca. É quando vida e morte se entreolham, não sem uma alegria estranha, copulada na esteira de uma estreita comiseração. Neste intervalo de olhar, pode-se ler a história de uma saída. Mas, também, a página em branco à espera daquilo que ainda não se escreveu. Que olhar, meu Deus! Seu semblante gélido e, ao mesmo tempo, demoniacamente excitado de fogos de artifício, vai comemorar este ponto de troca da sucessão. Quem sente pena de quem? Não temos resposta nem sabedoria suficiente para avaliar. O que realmente se faz congelar neste olhar: um gozo estranho, silencioso, de uma esperança não acreditada. Entre um e outro, há um olhar que olha, eles se entreolham e nada veem. O olhar deste que sai, e que já deixou suas marcas na cadeira vazia, e o daquele que entra, sem saber como será aceito pela cadeira que restou ali, sozinha, praguejando seja o que for, isso tudo se conjuga num só e mesmo olhar, um olhar que se diria de uma única e mesma palavra: coitado! De quem, daquele que entra ou daquele que sai? Não sabemos, pois se trata, em todo caso, de uma fala que não se diz, que apenas balbucia, e que se enuncia pelo olhar entrevisto entre um e outro: gélido, tão velho quanto novo, prenhe de uma sonoridade dissimétrica, que carrega o odor de um cadáver que é próprio de almas que sofrem uma solidão. Almas que penam frente a um calendário de horror. Um olhar, de todo modo, que se diz também a si mesmo: coitado! Mas eles podem ainda constatar, mesmo sem saber, o ponto que demarca o escopo atenuante de um medo desejado. Este estranho medo desejado é o passaporte para a comemoração uma morte anunciada, de uma saída para uma entrada, não é mesmo?        

Então é isto? O processo que engendra sucessão é uma verdadeira ponte de passagem: tanto de uma entrada como de uma saída. Em todo caso, há, aí, a exuberância de uma cissiparidade momentânea da paixão pelo tédio. Um olhar que nada vê, ora vejam! Sim, como não? Ponto cego de ver, de ser visto e de se fazer ver numa impossibilidade de governar: eis, portanto, o nascimento de uma estranha transitoriedade, que se demarcaria como verdadeira castração, que deve dar suporte a uma não identificação da autoridade ao poder. A renúncia, como necessária, está na entrada. Seu estatuto de lei barra toda e qualquer tentativa de um acoplamento, portanto, incestuoso, por onde o poder cala a voz da autoridade política.     Até mesmo quando se trata de uma reeleição, segundo mandato já não mais será ocupado pelo mesmo que estava ali. Mas como? Trata-se do mesmo nome, da mesma pessoa, do mesmo número de campanha, e até do mesmo partido! Mas será sempre “um outro” que conduzirá o próximo mandato. Um tédio a mais, diversificado, esgarçado, que se passa a si mesmo como “outro”. Um sai para que outro venha ocupar aquele lugar. Também há aí o olhar de uma malícia: eu e minha imagem, meu irmão ciumento que faz canto de metáfora de mim mesmo como uma morte anunciada. Só cabe um! Não dá nem mesmo para se fraternizar: é um e somente um, e nada mais. Meu pobre e coitado irmão de discurso! Sua inveja. Seu ciúme. Seu ódio. Seu desejo não dito. Tudo isto irá nutrir o mais fundo de minha alma, aquilo que me servirá de alimento para governar meu tédio! Pobre de você que supõe compartilhar comigo. Você, neste exato momento, nem mesmo sentará à mesa comigo. Estarei só nesta ceia silenciada, mais uma vez? Meus pobres correligionários! Ou, pobre de mim mesmo, que nem migalhas de meu tédio eu poderei lhes dar. Mas há as ilusões que me confortam. E a vocês também, não é mesmo? Como poderia eu dar-lhes aquilo que é só meu? O amor, nem pensar, pois eu jamais faria essa maldade com vocês que me seguem. O amor é cego, senhores, e jamais daria a vocês aquilo que não tenho. Neste sentido, pelo viés de uma ética, o político está correto.       

 Um mandato termina para outro iniciar. A cadeira deixada vazia! Mas como? Isso não é possível! Uma cadeira vazia? Sim, mas só por um instante. E isso é muito justo, pois aqui se trata de uma lógica que é distinta das conquistas sexuais, quando dizemos que fulano não esperou nem mesmo o defunto esfriar para logo pegar viúva. A cadeira deixada “vazia” pode ainda estar quente demais, à espera de um sucessor que logo virá ocupá-la. É este o fato que glorifica o magistral embate de um processo sucessório. É isto! O tabuleiro sucessório é enigmático, cheio de artimanhas. Se alguém conseguir decifrar os bastidores políticos de uma campanha que mova a primeira peça.          

Um quadro sucessório em política é, por demais, complexo. Mas nem por isso ele deixa de ser interessante, pois ele faz renascer o debate que permanece adormecido, esquecido demais. Sim, o debate político é necessário, ele faz a coisa andar. Uma sucessão política quase sempre está colocada num tabuleiro que não tem, necessariamente, uma regra clara e nítida. As pedras que estão ali para jogar o jogo são os verdadeiros disfarces de uma civilização arrependida. Elas caminham para um lado e para outro, muitas vezes retrocedem, mas sempre estão de olho no passo que devem dar para frente. Mesmo porque, outro está ali por perto, o que remete cada político a se fazer questionar sobre sua relação com um desejo que seja decidido, que seja forte o suficiente para não ter pena ou piedade. Muitas vezes eles não podem, eles cedem, há emperramentos que não se sabe muito bem quais são. Por isso mesmo, no tabuleiro sucessório, o bom cavalo tem que ser cavalo de chegada. Muita raça! Às vezes ele pode ganhar por uma cabeça. Nesse sentido, o que seria ganhar por uma cabeça? Que aprendam desde cedo cantar o tango da sucessão: por uma cabeça! Quer dizer então que numa sucessão não se deve abrir mão de nada, nem mesmo do desejo? É verdade, nada mais que isso. Mas, e meu opositor? Que se dane! Só há lugar para um. A cabeça se torna peça fundamental, pode-se ganhar tão somente a partir dela. Por uma cabeça!Nenhuma ciência conseguiu explicar o que é um quadro sucessório. No jogo político é sempre assim: quando um chega com a farinha, o outro já está voltando com o pão quente o suficiente para queimar todos os outros à sua volta. Um verdadeiro quadro sucessório leva em conta, fundamentalmente, uma relação de concorrência. Nesta, não está em jogo somente o outro, meu rival, mas o mim mesmo, ou, se quiserem, o si mesmo de cada um. Porque há pessoas que desejam se tornar políticos e não conseguem: eles entram na disputa mas perdem para si mesmos. Quantas vezes não assistimos ao vivo, na televisão, debates políticos onde um se dirige ao outro, não como meu oponente, concorrente, mas meu candidato. Uma questão, portanto, de vida ou de morte, de uma luta de prestígio, de amor e de ódio! É a vida psíquica de cada um. Vire-se.         

Há, em todo caso, uma força residual em condições de dar as diretrizes do processo enquanto tal. Jamais nos permitimos pensar que o tabuleiro sucessório é absolutamente regido, tão somente, pela morte. Ela é causa e determinação dos deslocamentos das peças no tabuleiro. Que rumo tomar? As composições, os acordos, os trâmites de um sim ou de um não. Na realidade, é realmente neste tabuleiro, cujo senhor é morte, onde serão disputadas as batalhas que fazem brotar a magia de um diálogo infernal. O diálogo de um debate político tem como palco insígnias que ardem no mármore do inferno. A morte está ali, presente, atenta aos movimentos causais do jogo político. Porque se não houvesse morte, não haveria jogo. É ela quem dá as cartas. Vale dizer, de um só, e somente um, naipe: espadas. Quem vai tirar o ás de espada?        

Há, sim, uma mobilização de forças. Uma sucessão que tem a ver, logicamente, com sucessos e fracassos. Sucessão de empreendimentos, por exemplo. De geração em geração, uma sucessão política propriamente dita. Mas, numa sucessão de fato, aquele que vence poderá vir a ocupar lugar de governo de fato e de direito. Apenas um vencerá. Há outro que perde. Pelo menos por enquanto. Mesmo porque, ele poderá insistir. Mas ela, a cadeira vazia, estará lá, à espera! O que ela quer do político que está por chegar? O que ela deseja? Porque, depois de tudo, ele mesmo irá embora. Ela não, ela fica. Será que ela sente falta deste que se foi? Tal como antes, ela permanecerá sozinha, pensante, com aquele ar de interrogação? Não se sabe, mas seu silêncio é vital: quieta, não diga nada, nada que queixumes. Silêncio! Ao final, o vencedor terá mesmo é que lhe prestar contas. Entre o político vencedor e a cadeira vazia existe uma tolerância suportável, verificável pelo viés de uma relativização do tédio. Pela via do tédio, se entendem muito bem.      

O tédio que habita a alma do político não é nem uma tristeza, nem uma depressão, muito menos uma melancolia. O tédio é uma posição subjetiva pela qual o sujeito se faz experimentar, em seu vazio anoréxico, uma posição destacada em relação ao outro e aos seus pedidos e expectativas idealizadas. O tédio permite que o político possa manter sua libido dirigida à sua atividade política em consonância com a coisa pública. Com isto ele pode habitar e percorrer o território mais legítimo de seu ser, a serviço do que se inscreve como o justo de uma vida pública. Nesse sentido, cria-se um novo espaço para ele pensar, refletir seus projetos, conviver melhor com a justa medida de seus ideais pautados, de antemão, naquilo que teria sido um projeto de campanha. O lugar, que antes estava ocupado para atender demandas do outro, cede para o exercício uma política mais saudável. Tédio é tédio, nada mais que isto! O sujeito político, sentado em sua cadeira vazia, estaria de bem com o seu tédio? Ou poderíamos dizer que o tédio estaria de bem com ele? Em todo caso, teremos uma relação de cumplicidade que irá permitir a construção de um espaço que se torna necessário para que o político, em seu assentimento transitório, possa tomar suas decisões pontuais. Ou seja, o tédio é esta posição que permite que o político se reconheça a partir de uma renúncia necessária. Ele é necessário, não pode faltar. O político deixa entrever o sentimento de tédio pela via do olhar. Ele é passado pelo olhar.                        

José Nazar. Médico Psiquiatra e Psicanalista. Especialização e Mestrado (Universidade do Brasil – U.F.R.J). Psicanalista Membro da Escola Lacaniana de Psicanálise Brasília, Rio de Janeiro e Vitória. Membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e da Associação Psiquiátrica do Espírito Santo (APES). Membro da Associação Médica do Espírito Santo (AMES). Editor Chefe da Companhia de Freud Editora. E.mail: doutorjosenazar@gmail.com – 21.96110365        

 
     
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