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Problemas de Família Fale Comigo Dr.José Nazar Caro Doutor: Realmente não sei muito bem no que o senhor pode me ajudar. Estou casada há 27 anos e amo meu marido. Sei que ele me ama também. Tivemos dois filhos, um menino e uma menina. Eu e meu marido sempre fomos alegres, felizes e bem realizados profissionalmente. Ao contrário de nossos familiares que não tiveram sucesso profissional. Fracassaram. Meus irmãos não deram certo na vida. Minha única cunhada não dá certo em nada, tanto do lado profissional quanto de relacionamentos afetivos. As pessoas brincam e dizem que ela tem o dedo podre. Encontra-se novamente desempregada, separada do terceiro marido, com 4 filhos para criar. Escrevo porque também preciso desabafar. Há dois anos, perdemos um filho, o mais velho, sobre o qual tínhamos muitas expectativas. Ele contava com 18 anos de idade e havia acabado de ser aprovado no vestibular. Sua irmã, na época com 14 anos, presenciou sua morte: ele pulou da janela do quarto dela. Suicidou-se, não queria mais viver. Desde os 15 anos estava apresentando comportamento estranho, vivia isolado dentro de casa, se afastando de amigos. Conversamos com alguns professores, médicos e amigos, todos diziam que era da idade e que depois ele iria melhorar. Coisa de adolescente, isso vai passar, diziam. Meu próprio marido disse várias vezes que também na sua adolescência era assim, vivia num mundo fechado. Levamos a um psiquiatra que o medicou com antidepressivos e tranqüilizantes. Ele até que vinha um pouco mais animado. Depois desta calamidade, minha casa parece que não tem mais vida. Ninguém sorri, nunca falamos sobre ele, seu quarto permanece intocado. Eu e meu marido evitamos nos olhar: parece que estamos nos acusando e acusando um ao outro. Desde então não nos tocamos mais. Estamos com medo um do outro, e com raiva também. Falamos com médicos, tomamos antidepressivos, conversamos até com um padre. Todos tentam nos consolar. Parece que a coisa se afunda cada vez mais. Estou com medo de acontecer o mesmo com o que restou de minha filha, pois estamos deslocando todas as nossas esperanças para cima dela. Gostaria de uma orientação. Não sei se o senhor tem filho. Não sei se o senhor tem idéia do que é perder um filho, a dor, o desamparo. Nunca fizemos análise e não sei se essa história de falar para um desconhecido ajuda em alguma coisa. Fizemos um acompanhamento com uma psicóloga especialista em perdas, pessoas que perderam entes queridos. De nada adiantou! O que fazer para esquecer isso tudo e seguir a vida em frente? Eu e meu marido temos ainda um ao outro e nossa querida filha. A Perda de um Filho Miserável! Olha o que você foi fazer comigo! Como vou suportar a falta que te faço? É realmente isto! Se pelo menos alguém desta família pudesse enunciar esta frase, as coisas estariam certamente menos pesadas, na medida em que ela traduz um ódio necessário de ser colocado em palavras: maldito, desgraçado, olha o que você fez comigo! Por que você me abandonou, o que vou fazer com isso que restou de ti? A morte de um filho ou de uma filha é o fato mais traumático para uma família. Não existe nenhuma palavra que possa exprimir a verdadeira dor sentida pelos familiares a propósito da morte desse fato tão traumático. Uma vida que se interrompe, isso quer dizer alguma coisa! Frente ao vazio da falta provocada por um filho que se foi, pai, mãe e irmã, cada um na sua particularidade, sofrerá uma dor incomensurável, a dor de um vazio que é inigualável, distinta de todos os outros distúrbios que possam nos acometer. A singularidade desta dor tem a ver com os investimentos que cada sujeito é capaz de manter nas suas relações afetivas, nos vínculos que mantém com a vida. O que se passou com este adolescente? Porque ele não conseguiu acreditar em outra saída senão interromper sua própria vida? Sabemos que a sintomatologia dos jovens tem comparecido com uma freqüência assustadora, passando a ocupar territórios essenciais desta idade ainda em transição e que se apresentam em seus abalos e turbulências muitas vezes incontornáveis. São adoecimentos, sentidos e sofridos, mas que não são pensados e elaborados a partir de uma reflexão, no sentido de uma possível simbolização. Há uma impulsividade que é própria do adolescente. Mas os conflitos estão aí, presentes, produzindo seus efeitos desastrosos e devastadores, que irrompem de uma maneira traumática, irrisória, drástica, assustadora e, até mesmo, insana. Trata-se, portanto, de um movimento por demais agressivo, inconsciente, que é ignorado pelo próprio sujeito, mas que apresenta força suficiente capaz de promover danos irreparáveis. O jovem pode estar realizando, insistentemente, uma violência que é desencontrada, contra ele mesmo e com o outro, seu próximo, podendo até mesmo produzir efeitos desastrosos que se traduzem como vidas não resgatáveis: vidas interrompidas, tanto em seu encaminhamento de desejos quanto nos modos perturbadores de interrupção do viver. Quando o jovem coloca fim à sua própria existência ele está interrompendo, a um só tempo, tanto a transmissão de valores familiares que se construiu ao seu redor quanto ao que era esperado que ele pudesse retificar em relação à herança recebida de seus antepassados a partir de um universo de novas significações. Ou seja, ele coloca por terra o sentido da vida em sua derradeira necessidade de procriação. O jovem que provoca sua própria morte pode estar sofrendo os embaraços de uma dor herdada de gerações anteriores. Por alguma razão, ele não conseguiu reverter o rumo da história recebida, daí, portanto, ele sofre os efeitos devastadores dos ideais contrariados de seus ancestrais. Por alguma fragilidade psíquica – são aqueles sofrimentos psíquicos mais avançados, vale dizer, as melancolias – ele não conseguiu se dar a chance de assumir e se apropriar de sua própria história retificando a má sorte que uma equação de vida lhe impôs como algo tão maldito. Não há culpados na história. De algum modo temos que nos tornar responsáveis pela história que recebemos dos nossos ancestrais. Qual o foi o peso desta história recebida que levou este jovem a não suportar viver? Uma história que se estrutura pelo viés dos efeitos de inconsciente – de uma boa ou má sorte – que ela mesma instaura. A herança simbólica que cada um de nós recebe, até mesmo antes do nascimento, com a interrupção de uma vida, cessará de ser transmitida para filhos e netos, restando, nesse vazio, nada mais que um ponto de sacrifício habitado por interrogações silenciadas. Herdamos uma vida por onde florescem todos os pecados do mundo, vale dizer, do pai, da mãe, dos nossos antepassados. Votos de vida e votos de morte. Cada um de nós terá que aprender a lidar com a sua história de uma maneira particular, a partir de um estilo de vida. Mas temos oportunidades e meios para mudar os rumos de uma má sorte. O ato suicida, como um gesto trágico e insolente, configura a quebra radical de uma possível escritura genealógica. Ao se matar, o jovem interrompe o que há de mais sublime na vida humana. Ele diz não à incidência da função paterna e abole a possibilidade de se transmitir uma simbolização daquilo que se articula entre lei e desejo. Ou seja, ele castra o pai em sua virilidade de transmissão dos projetos e dos investimentos futuros de seus ancestrais, tudo aquilo que habita o inconsciente de seus pais e que a ele teria sido transmitido. Os pais desejam que os filhos vivam cada vez mais, é o que se observa no cotidiano das relações familiares. Que eles tenham uma boa infância e que possam participar das brincadeiras de crianças, que cresçam e se tornem independentes, que estudem e cursem uma universidade, que encontrem um caminho vitorioso na vida amorosa e profissional. Pais desejam passar para filhos o sentido de uma transmissão. Mais, ainda, os pais desejam, verdadeiramente, que seus filhos estejam presentes quando eles morrerem, que eles enfrentem e superem as dificuldades e que possam vir a testemunhar a morte de seus próprios pais. Em todo caso, temos de insistir, olhar de frente os problemas que o suicídio de um jovem nos coloca, e procurar os meios mais adequados para lidar com esta questão que é, por excelência, das mais traumáticas e cruéis para qualquer ser humano. A morte de um filho! O que um psicanalista pode falar a respeito desta situação que envolve não somente a família em si e pessoas próximas, mas também, o entorno social de uma política pública? A psicanálise ainda é o que temos de melhor para abordar situações tão agressivas e violentas, capazes de provocar danos irreparáveis numa estrutura familiar. O método psicanalítico leva em conta o impossível, o incurável. Por isso mesmo, seu instrumento primordial é a colocação em ato da palavra que tem, por objetivo, construir uma interpretação sobre os sintomas que levam os sujeitos a sofrer verdadeiras devastações no campo de seu desejo. Uma família que perde um filho, é uma família em perda, uma família que perdeu. O buraco que ficou é o rombo de cada um, é a parte que cabe de uma subjetividade. Este filho que se foi carregou algo de cada um e que, por sua vez, algo dele restou no pai, na mãe, na irmã. Também nas vizinhanças, há ressonâncias dos estilhaços de perdas que promovem feridas por vezes não cicatrizáveis. De quê lugar é possível responder a este apelo? Sou pai, e tenho filhos. Penso que a perda de um filho deve ser a dor maior que a habitar a alma de quem sofre. O que se passa nesta família? Logicamente não é mais a mesma. A morte do filho provocou uma desestruturação, uma quebra dos vínculos, uma ruptura dos laços que sustentavam uma cumplicidade, necessária para se viver em família. Mas alguma coisa ainda vive, para além do que se poderia imaginar. O tempo não curou! Um morto que ainda está vivo, perturbando a vida na casa. Não há mais lugar para a alegria, para o diálogo. A família está pesada, pesarosa, fechada em si mesma. Seus membros não podem respirar vida. Eis o problema maior. Não há lugar para a palavra, ela não circula. O morto está posto ali, alocado em proporções distintas em cada um, fazendo parte, impedindo que a falta se coloque, que circule. Desejos amortecidos, ninguém se autoriza desejar. Morto não fala, não vamos traí-lo. Respeito! O casal não se relaciona, homem e mulher não se acolhem. Pai e mãe estão vivendo sob regime da culpa, da acusação. Nesta família há um morto que necessita ser enterrado. Ele está ali, claudicando, seus traços estão vivos em cada membro da família. Com a morte deste filho alguma coisa se quebrou e todos se recusam a delinear por uma ética que rege os princípios de uma vida em família, em sociedade. Mas isto pode mudar. É necessário que haja desejo de mudança, que estes pais cessem este banquete totêmico e não se alimentem mais deste filho que, por alguma razão, se foi. É duro, é difícil, realizar o luto de um filho tão idealizado, tão querido. Deixá-lo ir embora, deixar o morto ir embora em paz. Esta família necessita enterrar este filho. Chega de tanto narcisismo, chega de tanto egoísmo! Soltem este filho, procurem restaurar e retificar o olhar que anda escondido pelos cantos da casa. A presença da palavra quando circula é santa, pois é capar de provocar mudanças incríveis! A ética estaria justamente no fato de se colocar a palavra em dia. O desejo, como razão da vida, pode retornar através do olhar e da voz. Falem um com o outro. O relacionamento sexual do casal é vital, e este fato pode produzir efeitos de desinibição nesta filha que está imersa no absurdo de uma culpabilidade. Há que se fazer uma boa aposta nesta filha. Com a fala, o que resta desta filha poderá renascer. O olhar e a voz, do pai e da mãe, do homem e da mulher, funcionarão para esta filha como a água e a luz para uma planta! Sendo assim, o esperado é que estes pais e esta filha, em sofrimento, possam escolher o caminho da palavra, no sentido de um trabalho de elaboração da perda. É aconselhável que eles caminhem nesta direção: que façam o bom uso da fala. Por que senão, eles próprios vão permanecer num estado de falta, arrolados numa eterna acusação. Por isso mesmo, torna-se necessário que se criem condições adequadas para que possam falar sobre o acontecido, da representação daquela perda, que façam o bom uso da palavra, até mesmo no sentido de transmitirem alguma coisa sobre este horrível desconhecido. Quando não falam é porque eles próprios estão inseparados deste filho que se foi, imersos num gozo culposo e lamentador. Manter o filho insepulto! O perigo é que eles permaneçam em sofrimento, identificados ao gozo paralisante desta presença morta, caindo na ressente de uma dor de perda, que não faz outra coisa senão ruminar dentro deles como o próprio peso de um fracasso. Mas isto não deve demorar muito, mesmo porque não é justo com este que se foi. Deixar o morto significa poder abrir as portas para uma angústia de separação e carregar boas lembranças deste que se foi. Ao mesmo tempo, questionar o peso dos ideais que foram colocados neste filho: os pais, talvez com medo da repetição do fracasso na vida de seus antecedentes tivessem, mesmo sem se dar conta, exagerado na dose, de expectativas para com este primeiro filho. A dignidade de um pai, de uma mãe - e desta irmã - será justamente colocar boas palavras nestes sentimentos de separação: construir o luto, no tempo justo e necessário, e deixar que o morto possa ir embora. Ou seja, saber se separar, não-sem se questionarem sobre o acontecido, sobre sua parte nisso tudo. Vale dizer, introduzir a falta como alguma coisa da ordem do abençoado, como algo que rompe um ponto do narcisismo da família, no sentido de passar para outra coisa na vida. Respeitar a separação, deixar que o morto se vá. Nada mais que isto! Caso contrário, eles permanecerão, ali, fusionados num gozo estranhamente familiar e melancólico, à espera de migalhas daquilo que se foi. Este filho, ele mesmo tinha suas razões. Razões não sabidas, desconhecidas dele mesmo. Ele até poderia dizer: fui embora, cuidem vocês de suas próprias vidas! |
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