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  COMO LIDAR COM O SUICÍDIO DE UM ALUNO  
     
  Escrito por DR. JOSÉ NAZAR
Publicado em 03/09/2009
 
     
 

   Problemas de Família   FALE COMIGO  Dr. José Nazar

Sou professora de escola particular em Vitória. Li sua coluna sobre A Perda de um Filho onde você aborda a complexa e dolorosa questão do suicídio na adolescência. Vivi este drama de perto, com a morte prematura de um sobrinho. Acredito que os pais estão numa corda bamba com relação a seus filhos.   A questão que encaminho para problemas de família é a seguinte: como lidar com alunos de uma escola que perdem um colega ou uma colega, cuja causa da morte é suicídio? Nós os professores ficamos perdidos quando acontece um fato como este. Não sabemos o que fazer. O silêncio e o desvio do olhar tomam conta do vazio que ficou no lugar deste que se foi. Não se toca no assunto. Não se pronuncia o nome do aluno ou da aluna que morreu, nada se fala a respeito. O clima entre professores e alunos é de constrangimento. Não temos palavras para dar conta da situação. É lógico que com o passar do tempo o esquecimento vai toma conta e tudo volta ao “normal”.      Já fizemos reuniões entre nós professores e coordenadores e não encontramos respostas, não sabemos o que fazer. Devemos, sim ou não, abordar o assunto com os alunos? É melhor discutir com os alunos ou ficar calados. Sentimos medo de mexer num assunto como este. Parece que até mesmo a palavra suicídio é retirada do nosso vocabulário. O que fazer? Não sabemos. Carla Maria dos Anjos             

  Há que se escutar o que os alunos têm a nos ensinar 

Confesso que já fui interrogado inúmeras vezes sobre este impasse que tem como ponto nuclear o suicídio de um jovem estudante. O que fazer com os colegas mais próximos deste que colocou fim em sua própria vida? Muitos pais e professores já me abordaram para falar sobre tal assunto, até mesmo no interior de meu próprio consultório. Recusei alguns convites feitos para que fizesse intervenções em escolas que se encontravam no sofrimento da perda de um aluno ou de uma aluna. Trata-se de algo difícil e doloroso demais de se abordar até mesmo por psicanalistas experientes.           Minha cara senhora, sua questão é instigante e instrutiva, pois pode transmitir ensinamentos fundamentais para pais e professores de todas as famílias e escolas. Portanto, seu pedido deve ser bem analisado. De saída, posso dizer que a reação dos alunos frente à morte de um colega que cometeu suicídio é inteiramente distinta do que a resultante de outra razão de morte: por exemplo, uma doença grave qualquer, infecções, câncer, acidentes. Temos que guardar este apontamento. A reação é mais problemática de todas as outras porque toca de perto a subjetividade de cada um pelo viés das identificações.            Quando um jovem provoca sua própria morte nós não alcançamos a dimensão deste seu ato. Nós nem mesmo passamos por perto dos demônios que este ato desperta dentro de todos nós, em nossas cabeças, em nossa vida psíquica e social, de pais, de irmãos, de colegas e amigos da escola. O suicídio parece ser algo da ordem do incompreensível, uma fatalidade. E isto nos conforta, permite que o aceitemos como alguma coisa que está para além de nossa razão, para seguirmos em frente na vida. Será que temos condições de nos aproximar, ou até mesmo ensaiar uma abertura possível, no sentido da construção de um luto em relação ao que se perde a partir de um suicídio? Será que desejamos lidar com o sentido último deste ato que nos desloca, deixando-nos à míngua, frente a frente com a miséria humana? Ou não seria melhor e mais conveniente – mesmo porque, não somos de ferro – colocar nas mãos de alguém mais forte e poderoso capaz de resolver nossos problemas, tal como Deus? O suicídio de alguém próximo, ele mesmo não cessa de nos condenar a fazer retornar mais uma vez a lembrança de algo que não queremos saber e que fazemos um esforço hediondo para esquecer de uma vez por todas. Parece algo simples, mas não é! O suicídio nos condena a uma dolorosa rememoração de que somos seres capazes de pensar. Que loucura, dirão alguns! Que babaquice, dirão outros! Mas é realmente isto. O ser humano faz de tudo para não pensar. Sabe por quê? O pensar verdadeiro tem a ver com uma falha que inaugura a vida e que reflete a existência da morte real, da qual nada sabemos e nunca teremos como saber. Pois, cá entre nós em sã consciência, não existe na face da terra ninguém que tenha morrido e que tivesse retornado para nos dizer o que é a morte. Se ela é boa, se é má, se é bonita ou não, se precisa ou não fazer dieta. Nada, nada sabemos. A morte é o fim, ela é a única verdade, ou, se quisermos, ela é a verdade derradeira da qual ninguém escapa. Cada um que marque sua hora. Uns se cuidam mais, outros menos. Ela não negocia nada com ninguém. Com ela, minha cara senhora professora Carla Maria dos Anjos, não tem jogo. Temos é que aprender a deixá-la em paz.          O ato suicida de alguém nos coloca uma breve e tênue sensação de vizinhança com aquele que provocou sua própria morte. Somos irmãos nesta possibilidade. E é por isso que os jovens estão acuados, eles estão com medo. Eu penso, e ao pensar eu penso que também posso fazer comigo o mesmo que meu semelhante fez. Sem pensar? Sim. Entendem? Por isso mesmo, é tão difícil lidar com a dor envolvida neste ato impensado. Vire o rosto, não olhe, esqueça, jogue com o tempo, isso é coisa de maluco, fatalidade, destino. Não fale sobre isto!       Sempre que um jovem interrompe sua vida, há um sentimento de horror não somente para a família, mas, também, para todos aqueles que partilhavam com ela de um convívio mais próximo. O núcleo familiar sofre a dor maior. A dor maior de todas as dores. Há um sentimento de perda, uma sensação de algo que é irrecuperável. Os pais se culpam e se recriminam. Mas há ainda outros familiares, há os amigos dos pais, há um entorno que sofre um sofrimento de solidariedade.           Mas a coisa não fica por aí. Os amigos e colegas de escola deste jovem que se foi, como eles mesmos ficam? Trata-se de uma questão difícil e delicada de se abordar. E é isto o que esta senhora professora nos coloca: como lidar com isso que resta, ali, na escola? Mesmo porque parece que um pedaço deste que se foi sem dizer de suas razões permaneceu na alma de cada colega, próximo ou não. O medo, as fantasias persecutórias, a tristeza, o pesar, tomam conta da cena.     Escola e família são lugares e funções que pelo menos não deveriam se confundir. Mas, às vezes há uma confusão de lugares, onde os pais delegam suas funções para a escola e esta se torna então uma extensão da família. Mas não devemos esquecer que cada aluno atualiza, a partir de sua economia psíquica, uma estrutura familiar que lhe é particular, com seus traços, suas marcas. Uma família que ele carrega dentro dele mesmo com os devidos lugares e funções ocupados devidamente: pai, mãe, filho, demarcados e tecidos por uma lei singular que sanciona o campo do desejo e que atualiza a nodulação do desejo de vida e desejo de morte.           Vamos ver quão ampla e complexa é esta sua questão, quantas coisas entram em jogo tornando esta empreitada uma verdadeira arte. Mas, para além da justeza da intervenção há o sentido maior que reside numa responsabilidade deste gesto, deste diálogo que deve ser franco e aberto, junto destes alunos que também perderam algo de si junto a um colega que acaba de morrer. A dificuldade maior reside no fato de que um jovem colocou fim à vida.   Falar ou não falar sobre o assunto com os alunos? Eis aí um ponto que eu nomearia como algo da ordem da ética, ela clama pelo resgate do bom uso da palavra. Que caminho tomar, como proceder junto a estes meninos, seus colegas de escola, que permaneceram tendo cada um que se virar com o vazio que restou? O que fazer, o quê?    Qual o papel da escola nesta triste tarefa? Ela terá forte resistência de abordar o suicídio deste jovem, pois ela também se encontra num estado sofrimento e de perda. Falar sobre o assunto seria a melhor maneira de conduzir uma situação traumática como esta? Não falar e permanecer em silêncio, cá entre nós, se torna muito mais conveniente para todos, não é mesmo? Portanto, não há uma regra, menos ainda uma receita. Falar ou não falar com estes que ficaram? Estes que durante um tempo gozaram da presença daquele que se foi sem nada dizer.           Falar com os alunos é realmente necessário. Por quê? Porque senão o campo fantasmático irá tomar conta do buraco que se apresentou no lugar deste aluno que, à sua maneira, participava da dinâmica da escola. O importante não é falar ou não falar mas, de quê maneira abordar um assunto tão angustiante e, com qual objetivo. O quê dizer, como abordar, até onde e como tocar no tema do suicídio? Podemos trabalhar a questão, pelo menos de saída, com a turma da qual o jovem fazia parte. Primeiro, escutar o que os alunos têm a nos dizer. O que eles têm a nos ensinar. Os alunos são sensíveis demais para perceberem quando os professores não estão presentes ali, de onde eles estão falando. Falar por falar é pior. Há que se escutar o que os alunos têm a nos dizer, ouvir nas entrelinhas, seus pontos de angústia. Ou seja, realizar uma verdadeira leitura do acontecido, deixando lugar para questionamentos. A questão maior será: mas isto também pode acontecer comigo? Explicar sobre a capacidade que temos de pensar, de fantasiar. O que é diferente de passar ao ato, de realizar o ato suicida. Mais, ainda: mostrar com todas as letras que o sujeito que praticou o suicídio, talvez ele mesmo não tivesse a morte como seu objetivo. Pelo contrário, talvez quisesse se ver livre da morte, ele talvez quisesse viver. Mas ele quer se ver livre de um sofrimento que o massacra por dentro, de uma angústia persecutória que o aniquila e ele não vê outra saída senão fazer a besteira que acaba por fazer. Há algo que é muito importante e que os professores necessitam saber, pesquisar: praticar o suicídio, isso não é para quem quer. Isso alivia a cabeça dos jovens. Isto é para quem pode, para quem está realmente doente, sofrendo, carregando um peso que não é seu. Não se trata de um querer consciente. O sujeito que interrompeu sua vida o fez porque se viu fracassando frente às exigências e aos ideais da sua historicidade familiar, que são transmitidos pelo inconsciente. Por isso mesmo, torna-se importante que cada um possa falar de suas questões, possa externar seus medos e suas fantasias. O bom diálogo nasce dentro de casa, inicialmente com os pais, depois com amigos e colegas das escolas.        Nesse sentido torna-se saudável falar sobre o suicídio de um jovem numa escola. Precisamos perder o pudor em relação à morte e ao suicídio. Talvez falar, debater, sobre o suicídio, possa retirar o peso do estigma que gira em seu entorno.                       Cada aluno, cada professor, funcionários da escola, cada um de uma maneira ou de outra carrega um pedaço do morto para sua própria casa. E aí entram os pais. Seria interessante perguntar: Não seria enriquecedor acolher os pais dos alunos que queiram participar das discussões? Mesmo porque eles também carregam fantasias de morte em relação a seus filhos, não é mesmo?   José Nazar. Médico Psiquiatra e Psicanalista. Especialização e Mestrado (Universidade do Brasil – U.F.R.J). Psicanalista Membro da Escola Lacaniana de Psicanálise Brasília, Rio de Janeiro e Vitória. Membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Membro da Associação Psiquiátrica do Espírito Santo (APES). Membro da Associação Médica do Espírito Santo (AMES). Editor Chefe da Companhia de Freud Editora. E.mail: doutorjosenazar@gmail.com – 21.96110365        

 
     
Comentários  
     
  E os outros textos? Estava procurando o Marcas Incuráveis para mandar para um colega...  
 
Postado por vania em 2009-10-14
 
     
  É um artigo bem muito elucidativo na questão do suicídio.  
 
Postado por Florisvaldo Araujo em 2009-10-08
 
     
     
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