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  NINGUÉM ESCAPA DA MORDIDA DO LOBO  
     
  Escrito por DR. JOSÉ NAZAR
Publicado em 03/09/2009
 
     
 

Problemas de Família:FALE COMIGO DR. JOSÉ  NAZAR    

  Bom dia doutor:    

  Tenho 50 anos. Moro na cidade de Vila Velha há 45. Sou casada e tenho uma filha de 17 anos que nasceu no dia 10 de março de 1992. Meu marido desempregado na época, eu tendo que trabalhar fora para sustentar minha família, decidi que não teria mais filhos por conta da minha condição. Apelei para a ligadura de trompas. Após o período da licença maternidade, minha filha então com cinco meses de idade, passou a ficar com várias pessoas. A primeira que cuidou dela foi a minha vizinha, que hoje é sua madrinha. Depois ficou com minha mãe, com empregadas e depois passou a estudar em uma escola perto do meu trabalho, assim poderia ficar um pouco mais com ela, pois ao término da aula eu a buscava, e então ficava comigo até o fim do dia.     Mais adiante, depois que cresceu e se tornou adolescente, aos 12 anos, voltei a estudar, deixando-a uma parte do tempo em casa, sozinha, pois o pai dela, a partir de 2005, voltou a trabalhar em tempo integral.     Após esse tempo, quando consultei uma terapeuta que trabalha com bioenergética, qual não foi a minha surpresa: minha filha estava apresentando um quadro de lúpus, um adoecimento vindo do stress. Buscando informações a respeito, cheguei à conclusão de que após todos esses anos que minha filha viveu aqui e ali, sem minha presença, isso acarretou esse problema, que hoje eu vejo como consequência de minha ausência. Sofro muito com isso. O que posso fazer para remediar essa situação?          Procuro dar muito amor à minha filha, muitos beijos e abraços, mas penso que não é o suficiente. Ajude-me, por favor... 

Mãe Desnorteada      

 Você se recrimina pelo adoecimento de sua filha, creditando às suas faltas a eclosão de um quadro clínico que foi diagnosticado como lúpus. E, se não bastasse, você também se acusa de ter tido somente uma filha, como se tivesse cometido algo muito grave por não ter oferecido irmãos para ela. Ao afirmar que a doença que sua filha sofre na pele é uma consequência direta das suas ausências, certamente você se coloca aí, neste acontecimento traumático, como a única causadora de todo sofrimento desta jovem adolescente.             Mas, será que é assim mesmo? Acredito e, portanto, acho mais saudável, que as coisas possam e devam ser colocadas de outra maneira. Você mesma acha justo colocar-se tão culposa e como única causadora da doença de sua filha? Vamos ver! Pode ser que as coisas não sejam bem assim, e então vamos procurar outro viés de análise sobre esta questão que se resume num sofrimento cruel para todos nesta família e à sua volta.       Suas angústias e seus desesperos são sentimentos legítimos, compreensíveis e, até poderíamos dizer, justificáveis. Qual mãe não sentiria o que você está sentindo? Engraçado dizer isto, mas o que me ocorre é que todas as mães se sentem culpadas pelos problemas que os filhos apresentam. Parece que as mães já nascem culpadas! Portanto, temos que nos focar sobre a particularidade deste seu sofrimento, que não é outro senão aquele de uma relação por demais sacrificial em relação à sua filha. Na maioria das vezes, é a presença efetiva da autoridade simbólica do pai o que irá amenizar a sofreguidão deste tipo de relação. A presença da lei paterna intervém impedindo uma relação incestuosa entre uma mãe e seu filho ou sua filha.   Você se denomina mãe desnorteada. Eis aí uma bela metáfora que pode ajudar a todos nós. Com estas palavras, você consegue traduzir, com a maior clareza possível, o lugar que a mãe ocupa, hoje, na difícil tarefa de conduzir a educação de um filho ou de uma filha, na estrutura familiar. Os pais também, não somente as mães, de fato, estão cada vez mais desnorteados em relação ao futuro de seus filhos. E isto não é de todo ruim. Pelo contrário, pode se tornar muito positivo no tratamento da questão. Depende do enfoque, do ponto de vista da abordagem, pois é o que permite a abertura necessária para que se possa pensar e refletir sobre os distúrbios que se apresentam aqui ou ali. Como fazer bom uso da insegurança que há sob o véu da falta de uma direção antecipada? É possível sim, fazer bom uso das incertezas. Sabe por quê? Estar desnorteada é sinal de uma possível mudança, pois pode abrir portas para questionamentos verdadeiros que se tornam viáveis para enfrentar a dura realidade dos conflitos do cotidiano de uma vida em família.  Que lugar você ocupa, mãe desnorteada, nessa trama familiar? Esta pergunta pode abrir para uma nova perspectiva no sentido de poder desembaraçar os distúrbios familiares e, a partir daí, construir um novo viés de reflexão sobre a seguinte questão: por que razão o excesso de culpa? Por que você se reconhece nesta necessidade de viver se culpabilizando e se justificando por todos os males que acometem sua filha? Você deve se questionar sobre este ponto e desconfiar destes sentimentos que tomam conta de seu ser.          Vamos tomar as coisas da seguinte maneira: você teve uma única filha porque este era seu desejo, e nada mais. Para que explicar o que parece inexplicável? Assuma as razões que a levaram a tomar esta decisão, faça um esforço para mudar o sentido desta história vitimada e, daí, procure se reconhecer numa outra posição subjetiva que não seja esta. Minha cara, assuma o que verdadeiramente você é! Arrisque ser você mesma! Faça uma boa leitura de sua história, pois está escrito que você é uma mãe guerreira. Uma mãe que pariu, cuidou como só você pode cuidar da sua querida filha, e ainda foi à luta procurando dar bons exemplos para ela. Não deixe, em hipótese alguma, e por nada neste mundo, de avançar em seus estudos, e estar de bem com seu desejo. Agora, algo muito importante: não se esqueça de alimentar, cada vez mais, a mulher que certamente anda adormecida sob as vestes desta mãe desnorteada. Clame um pouco por este homem que a elegeu sua mulher. A culpabilidade não é um bom instrumento de uso em nossa vida, pois ela nos paralisa e não nos permite avançar em nossos projetos. Pelo contrário, ela nos condena a frequentar uma posição muito cômoda que é aquela tão bem conhecida de se permanecer remoendo o bastão de um gozo como vítima. Isso é ruim para você e para sua filha.   Em todo caso, o que importa realmente é poder se questionar sobre os fatos que a incomodam. Se possível, mudar sua relação com a vida, caminhar, mesmo tendo a angústia como sua companheira, e buscar boas saídas para as coisas que deseja, encontrar novos caminhos, e seguir sempre em frente à procura de novos argumentos para sua vida. Minha história foi assim! O que posso fazer para mudá-la ou vivê-la com menos sofrimento? Mas, atenção, querida mãe desnorteada: nada de querer remediar isso ou aquilo em se tratando de vida! Isso sim, é ruim, faz muito mal. Remediar é alimentar o prazeroso sentimento de culpa. Por favor, nunca adote na vida uma postura de remediar. Nenhuma vida é uma maravilha. Nenhuma vida será curada e muito menos remediada. A vida não gosta destas coisas, pois ela mesma não cessa de clamar por mudanças. A vida é dura, cruel, e você, mais do que ninguém, sofre as dores da vida na pele. Mas, é preciso viver. Com dignidade, ou seja, com persistência.     Mas você não está sozinha nesta parada como dá a entender em sua carta. Você tem um marido que é o pai desta jovem. Onde está o pai? Cadê o pai? A figura paterna é essencial em todos os sentidos. Se ele for alguém quieto, fechado, do tipo deprimido, desperte-o. Somente as mulheres têm esta magia e elas nunca dão a chave do cofre para ninguém, sabia? A vida sexual de um casal é realmente a maior profilaxia no que diz respeito às patologias que possam acometer nossos filhos. Este pai, como seu marido, deve ser o agente provocador de um gozo sempre inesquecível dentro de si mesma. Quando um pai não consegue responder aos anseios de uma mãe enquanto mulher, a criança paga caro fazendo sintomas e mais sintomas. A invasão do gozo materno não depende tanto da presença ou ausência física de uma mãe. Algo que você não pode e não deve procurar encontrar nas suas fantasias comprazendo-se em excesso de sua filha. Ela, sua querida filha, faz parte de uma estrutura que é complexa e que se chama família. Há um pai, uma mãe e uma filha. Como funciona o pai nesta estrutura, como ele intervém? Faça-o responder pelos seus anseios, porque senão o escoadouro será na jovem garota se tornando uma mulher. Quando você mesma diz em sua carta "decidi ter somente uma filha", seu marido, o pai de sua filha, ele também deve ter participado da decisão, não é mesmo? Ele se encontrava desempregado na época, sim, eu suponho. Mas é o pai de sua filha.             A função paterna é vital. Ela salva um filho ou uma filha de um possível gozo avassalador prenhe de caprichos que se inscrevem na figura materna. Sem contar que é a partir da função paterna que se estrutura o simbólico das gerações no sentido de uma articulação necessária da lei e desejo. Trata-se, portanto, de um elemento que dá as cartas e que tem a ver com uma lei de transmissão que é distinta de todas as outras. Por isso mesmo, mãe desnorteada, deixe ou crie condições para que o pai possa entrar um pouco mais nesta relação, no sentido de oxigenar os caminhos desta adolescente. Não esquecendo que a lei do pai rege a historicidade de cada um, cada passo, cada escolha, os sucessos e os fracassos.               A mãe, ou melhor, o desejo da mãe, ocupa um lugar particular na estrutura familiar. Ele é distinto daquele do pai. O pai norteia e é norteado por muitas coisas. Ele ocupa uma função que o impede de gozar mais espontaneamente as relações com seus filhos. Muitas vezes são eles mesmos muito reservados. Uma mãe, porque também é uma mulher, é mais sensível aos problemas à sua volta. Ela carrega consigo uma maneira mais ardente de usufruir uma vida em família. Mesmo estando mais preocupada, ela é habitada pelos dilemas da vida cotidiana sem tanto pudor com as verdades que pululam aqui ou ali. É neste caminhar desnorteado que uma mãe pode olhar as coisas mais de frente. Uma mãe é realmente aquilo que eu consegui nomear de loucura santa.       Na sua carta há um verdadeiro pedido de ajuda. Como lidar com o trauma que se instalou no seio da sua família abatendo covardemente justo sua jóia mais cara e mais preciosa? Sua filha querida, a razão de sua existência, desde o início de sua adolescência, apresenta um quadro clínico compatível com o lúpus. Uma doença traiçoeira como tantas outras! Sua característica é que ela não obedece à ordem lógica comum, que demarca as defesas que um organismo ameaçado produz. O lúpus trapaceia a racionalidade do organismo acirrando, de maneira grotesca e paradoxal, suas próprias defesas como forma de se proteger de si mesmo. Normalmente, um organismo produz anticorpos contra antígenos externos, tais como vírus e bactérias. No lúpus, há um erro de leitura: o organismo trabalha contra si mesmo. Você afirma que este adoecimento é de fundo nervoso, fruto de um stress. Na realidade, sua causa não é tão somente de origem emocional. Ou, talvez, o emocional seja apenas um dos fatores desencadeantes. O lúpus é uma doença auto-imune, multifatorial, de origem ainda desconhecida. Há, certamente, fatores genéticos, hereditários, sociais, psíquicos e, até mesmo ambientais.        Mas, a doença, em si, já está instalada. O lobo já deixou sua marca. Não se iluda minha querida mãe desnorteada, supondo que a marca da mordida do lobo seja um privilegio seu ou de sua família. Todas as famílias, sem exceção, são marcadas pela mordida de algum animal feroz. Algumas são vivíveis e outras guardadas a sete chaves em seus armários desumanizados. Todos nós temos nossas feridas, e é isso realmente o que nos constitui como seres humanos, como seres portadores da linguagem. Essa marca que carregamos, a psicanálise a nomeou de sintoma. A senhora entende isto: ninguém escapa da mordida do lobo. A psicanálise diz que o sintoma da criança acha-se em condições de responder ao que existe de sintomático na estrutura familiar como representante de uma verdade. O lúpus é  o ponto pelo qual esta jovem, se tornando mulher, quer falar alguma coisa. Alguma coisa que necessita ser melhor escutada. Aqui entra a psicanálise. Esta seria a única condição de escuta do desejo que está por trás disto tudo. Uma psicanálise existe somente para isto: realizar uma boa leitura no discurso que é singular, que é de cada um. O que essa filha representa, eu não diria apenas no desejo do casal parental, mas, também, na historicidade do desejo dos pais de seus pais. O lúpus é uma mensagem cifrada. Somente falando para um psicanalista ela poderá chegar a algum lugar. Ela terá que se virar com isso. Nunca trate esta filha como doente. Pelo amor de Deus! Leve-a a assumir as consequências desta história e faça com que ela própria encontre os meios reverter esta má sorte. Reverter! Isto será possível se ela se distanciar do cemitério das vítimas. Assumir sua própria história para poder reescrevê-la de outra maneira. Isso certamente com a ajuda de um trabalho de inconsciente, ou seja, numa psicanálise.             Apoiando-se em fatores econômicos, a senhora se justifica e se culpa pelo fato de não ter tido mais filhos, como se isso fosse algo muito grave, capaz de causar danos psicológicos nesta que se tornou filha única, esquecendo-se de que todos os nossos atos, nossas escolhas, já estão demarcados a partir de uma historicidade. A senhora fez o que tinha que fazer e, certamente, fez da melhor maneira que podia e nada mais. Não sei quantos irmãos ou irmãs a senhora teve. Talvez, ter escolhido somente uma tenha sido uma maneira de ser única, você mesma, frente ao desejo de seus pais. Qual o problema? Deixe de lado o imaginário social que não cessa de dizer regras absurdas sobre isto ou aquilo. Vamos ao que realmente interessa.     Você, mãe desnorteada, não tem idéia como foi saudável ter saído para trabalhar, estudar, ou seja, cuidar também da sua vida. Já pensou como esta filha única se sentiria tendo o tempo todo o seu amor? Isso a adoeceria muito, mas muito mais. Sua filha estava lá e cá, mas sabia muito bem que você era sua mãe querida. A falta é fundamental, é abençoada.    Sua filha tem condições de viver uma vida normal que é a dela. Desde que ela não se acomode numa identificação de seus sofrimentos de mãe. Ela não é doente, não é e não deve se fazer identificar à doença em si. Ela, e somente ela, saberá que passos dar para viver uma vida normal, logicamente que tendo que enfrentar as mazelas da vida cotidiana. Inclusive, se esta jovem se atrever a pensar um pouco mais, ela poderá se antecipar no sentido de não provocar as crises inflamatórias. Isto é importante! O lúpus exige um tratamento cuidadoso por médicos especialistas, mais precisamente da área da reumatologia. Nada de remediar. Nada é remediável. Por favor, nunca mais use esta palavra, por favor!                     Não existe nenhuma família perfeita. Cada família é uma família. O importante é ter a humildade de detectar o problema de família que habita todas as famílias e trabalhar para que os danos não sejam impeditivos de insistir na vida.

 

 
     
Comentários  
     
  GRAÇA E PAZ TODAS COISAS COOPERAM PARA O BEM DAQUELES QUE AMAM A DEUS. Quem sabe isso tudo que aconteceu foi preciso pra chamar a sua atenção pra o que estava acontecendo , foi meio disso que você reconhecer o quanto você estava tão distante da sua filha e proxima dos seus o bjetivos. na verdade que o ser humana ele é um pouco egoísta . embora ele não perceba isso , ele vai em busca dos seus objetivos , das suas realizações que acabam se esquecendo que a nossa volta tem alguém gritando eu estou aqui , eu existo , eu preciso de você. na verdade não é só vc que comete esse erro , no mundo inteiro existe milhares de situação igual a sua , essa e somente mais uma de milhares de história que se repete . O diabo e acusador ,não deixe que ele de acuse por algo que vc não escolheu , maios as circuntâncias levaram a isso , embora vc tenha uma pequena parcela , mais mesmo não se culpe Deus tem sempre uma saida , e creio que nome de Jesus não só a sua filha pode ficar curado .como também o seu coração. minha amiga siga enfrente e tente recuperar o tempo permito a sua filha esta viva e vc pode mudar isso . Deus esta lhe dando uma chance de vc fazer o que vc não fez , de mostrar pra sua filha o quanto vc o ama e quer vc nção vai mais deixa´la taõ só . va enfrente e se livre da culpa. pra ser feliz  
 
Postado por ADRIANA DE OLIVEIRA em 2010-02-10
 
     
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Postado por CxBbQhZlgpIsb em 2009-11-18
 
     
     
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