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Sigmund Schlomo Freud nasceu em 6 de maio de 1856, em Freiberg (atualmente chamada Pribor), na Morávia (Eslováquia), e veio falecer em Londres, a 23 de setembro de 1939.
Dados da História
No dia seis de maio de 2006 foram comemorados os cento e cinqüenta anos de nascimento de Freud. Passado um século e meio, Freud continua vivo. Pelo menos no que diz respeito às suas idéias, que vieram se escrever como uma autêntica descoberta, tanto na fundação de um método clínico específico de investigação e tratamento das enfermidades mentais quanto na construção de um corpo teórico abrangente a partir de uma construção de conceitos fundamentais. Esta descoberta, como uma verdadeira descoberta freudiana, diz respeito ao irredutível de um inconsciente que remete ao singular da vida desejante de cada um: todos os movimentos e ações do sujeito são determinados pelos efeitos do inconsciente.
Freud viveu durante oitenta e três anos em uma constante luta e intensa ebulição intelectual. Seus últimos anos foram vividos sob o tormento de uma elaboração profunda daquilo que motiva as relações humanas em seus aspectos de amor e de ódio. A descoberta freudiana irá apresentar novas ferramentas no sentido de uma elaboração maior dos elementos inconscientes que estão presentes nos enlaces e desenlaces, no que une e que separa os homens.
O sofrimento que Freud vivencia, nos seus últimos anos de vida, tem a ver com situações que perpassam não somente o avanço sistemático de sua doença cancerígena e sua desilusão com os psicanalistas e grupos analíticos como, também, e muito mais, em relação aos efeitos devastadores de uma pressa de concluir sua teoria ainda em andamento sobre a presença efetiva do inconsciente na construção dos laços sociais. Ele se encontra frente a frente com a problemática do conflito que está na raiz das relações entre os seres humanos. Se o homem caminha na direção cega rumo ao princípio do prazer, é porque a infelicidade é muito menos difícil de experimentar. O sofrimento mais penoso que nos ameaça é, fundamentalmente, aquele que resulta do nosso relacionamento com o próximo. Ele constata que a subjetividade humana é tributária de uma incompletude essencial que é causa de desejo do falante. Esta tese magistral postula a presença efetiva dos elementos do inconsciente na constituição da cultura. E isso fervilhava dentro de Freud, que nesta época está vivendo e sofrendo, intimamente, os efeitos de uma presença efetiva e marcante de acontecimentos hediondos e bestiais que cresciam e avançavam em direção a uma Segunda Guerra Mundial. Mais do que nunca, ele encampará para si o adágio presente em sua teoria que afirma, de alguma maneira, que para alguém suportar a vida tal como ela se apresenta é fundamental poder levar em conta a presença da morte.
Em maio de 1933, os nazistas queimaram as obras de Freud em praça pública. Os alemães identificavam nas suas idéias uma presença inimiga e ameaçadora. Em onze de março de 1938, ele escreve: “Finis Austriae”. Logo depois, o exército alemão entra em Viena – o Anschluss. Era o início da devastação do povo judeu que residia em Viena, tal como Freud. Uma violência sem limites que viria, uma vez mais, ratificar as idéias preconizadas por ele mesmo sobre a crueldade no humano. Tratava-se, então, de uma repetição de acontecimentos anteriores que já estavam presentes na humanidade e que se inscreve como a essência mesma da agressividade no humano. Em seu belo ensaio sobre as considerações atuais sobre a guerra e a morte, Freud dirá “que o nosso inconsciente é tão inacessível à representação de nossa morte, tão ávido do assassinato do outro, tão dividido e ambivalente em relação à pessoa amada quanto o era em tempos originários”. A bestialidade humana novamente dá as cartas de uma insensatez. Insolência. O ser humano não é inocente. Menos ainda amoroso e cordial como muitas vezes ele se apresenta frente a ele próprio e a seus semelhantes. Ele é cruel, intolerante, culpado.
A invasão alemã autoriza seus correligionários a exercerem uma verdadeira atrocidade sádica contra os direitos e os desígnios particulares dos judeus que ali faziam, como outros povos, sua morada. Os valores sociais, democráticos e familiares da minoria judaica foram cassados da maneira mais crua e violenta possível. O tom de uma crueldade migrava e paralisava a ordem institucional. O movimento assassino, cínico e insensato, caminhava de uma forma arrasadora em várias direções, por aqui e por ali, produzindo ranhuras na ordem simbólica e no estatuto da lei, com o objetivo de destituir as conquistas que eram criadas e tecidas no processo civilizatório. Os alemães militavam sob o fanatismo de uma perversidade fanática, como uma verdadeira ordem de lei que os autorizava a tal exercício. Praticavam atos e assassinatos políticos de uma maneira cruel e pública. Esse gesto hediondo de abortamento abrupto das legitimidades viria denotar, no real da vida enquanto tal, a então tese freudiana sobre a raiz de uma agressividade humana, daquilo que o homem é capaz de produzir em si mesmo e no outro das mais diversas formas. A maldade no humano iria mostrar o máximo de uma arrogância indelével. Daquilo que o homem é capaz de realizar por ele mesmo e a despeito dele mesmo, daquilo que é capaz de realizar quando está identificado com os ideais de um grupo. A perda total da razão! Pura ação atroz, nada de pensamento. O fazer puro da agressividade sádica se fazia migrar, estando agora autorizado e identificado à ordem. Sem nenhum pensar, nenhuma reflexão. Cumprir a ordem! O agir bélico calava as vozes. Realmente, a única coisa que restava era o necessário silêncio aquiescente.
A violência dos alemães contra os judeus evidenciava, de certa maneira, a recusa determinada de aceitar as diferenças. Freud, ele mesmo, já havia se antecipado e escrito o seu manifesto, denunciando que a maldade é inata no ser humano. A idéia de uma bondade humana, tão apregoada por algumas vertentes religiosas, seria, então, posta à prova. Uma crítica severa ao princípio judaico-cristão “amarás o teu próximo como a ti mesmo” irá se impor no seu desenvolvimento teórico. Como é possível que eu queira o bem do meu próximo se é justamente ele, o meu próximo, que tanto quer o meu mal? A virulência de uma verdade que vislumbra e demarca a incoerência que é a própria divisão subjetiva do ser humano já aponta o mal que habita a estrutura discordante que é essência da realidade do sujeito humano. O humano goza com a maldição cruel da agressividade e da dor. É um ser que consegue satisfação somente na dor e na agressividade? Pulsão de morte? Ele irá responder, certamente: como vou amar meu próximo como a mim mesmo, ou seja, desperdiçar o meu amor, se ele, o meu próximo, quer tão somente o meu mal? Ah, é a maldade humana que carregamos como um bem em cada um de nós. O que dizer dos seres em grupo? O homem não é em absoluto um ser indulgente, de coração sedento de amor, que dizem que só faz defender-se se for atacado, mas, ao contrário, um ser que tem que computar em seus dados instintivos uma boa dose de agressividade. Para ele, por conseguinte, o próximo não é apenas um auxiliar e um objeto sexual possível, mas também objeto de tentação. De fato, fica tentado a satisfazer a sua necessidade de agressão à custa do próximo, a explorar seu trabalho sem remuneração, a utilizá-lo sexualmente sem seu consentimento, a se apropriar de seus bens, humilhá-lo, infligir-lhe sofrimentos, torturá-lo e matá-lo, dirá Freud.
O manifesto corrosivo se daria no gesto único de um gozo sádico e cruel, agora avalizado pelas instituições.
Com o objetivo de “depurar” a sociedade austríaca, estabeleceu-se uma proibição total aos judeus: professores, jornalistas, industriais, banqueiros, artistas, médicos não podiam exercer suas funções. Vamos acabar de vez com o brilho de uma diferença. Um aniquilamento de lugares simbólicos, que se escreviam no encadeamento de um progresso que determinam os caminhos de uma civilização. Com o objetivo de evitar uma humilhação crescente frente a si mesmo e ao outro, centenas de judeus cometeram o suicídio na primavera de 1938. Qualquer cidadão considerado um suposto antinazista era assassinado. Calam-se as vozes da diferença. Era o prenúncio de uma Shoah, de um Holocausto que viria consumar o hediondo genocídio dos judeus e que Maurice Blanchot viria dizer da escritura do desastre, um absoluto da história, historicamente datado. Freud já havia prenunciado essa capacidade bestial do humano, por onde a canalha caminha sorrateiramente nas pegadas e nas agruras de um horror. Tudo em nome de um ideal!
Freud se recusa a deixar Viena. O seu argumento é que estava velho e frágil para realizar qualquer viagem e que não poderia abandonar sua pátria como um desertor! Contava, então, com oitenta e um anos de idade. Depois, acaba cedendo às pressões e aceita. Marie Bonaparte paga por seu resgate. Será obrigado a assinar um documento afirmando que nem ele, nem os seus haviam sofrido qualquer perturbação por parte dos nazistas. Sai de Viena no dia quatro de junho e chega a Londres no dia seis. Na viagem de Paris a Londres, Freud sonha que desembarca no Porto de Pevensey. Associa sua chegada àquela de Guilherme o Conquistador que, em 1066, desembarca nesse mesmo porto. Sonho que antecede a solene recepção que o aguardava em Londres.Nessa época Freud conclui suas pesquisas sobre religião e cultura, constituindo sua trilogia: O futuro de uma ilusão (1927), Mal-estar na civilização (1929) e Moisés e o monoteísmo (1939). Uma verdadeira intervenção da psicanálise na cultura. A partir das noções que a psicanálise apresentava sobre os elementos do inconsciente, ele irá desenvolver uma tese que se tornou essencial para a compreensão da neurose e da subjetividade em geral e que permite questionar as relações entre o sujeito humano e a sociedade.
No dia vinte e três de setembro de 1939, morre Sigmund Freud. Ele estava pouco mais de um ano exilado em Londres, distante de sua terra natal. Vai morrer de um câncer maligno na região maxilar, após trinta e uma cirurgias. A morte, que já espreitava Freud há alguns bons anos, não conseguiu detê-lo, e muito menos o impediu de avançar em seu trabalho, tanto de uma prática clínica de consultório quanto de caminhar, mais e mais, nas suas pesquisas e produções teóricas em curso na psicanálise. Sua doença e tantos outros infortúnios na vida – a certeza da eclosão da Segunda Guerra Mundial – não conseguiram opor-se a esse caminhante analítico. Frente às adversidades que se apresentavam ele crescia e se tornava um verdadeiro gigante, fazendo progredir mais e mais a construção dos pilares da sua descoberta original.
Freud insistia em avançar nas suas elaborações sobre as causas dos sofrimentos da alma humana. Respondia com sabedoria e realidade e, até mesmo, com um senso de humor – herdado de seu pai: “Não pode haver mais dúvida de que apresento uma nova recorrência do meu velho e querido câncer, com o qual venho compartilhando a existência ao longo de dezesseis anos. No momento não podemos predizer qual dos dois irá provar ser o mais forte”. Freud estava atento às notícias que escutava diariamente no rádio. Ao lhe perguntarem se esta seria a última guerra, ele irá dizer: esta será minha última guerra.
Durante algum tempo ele se esforça para retirar suas quatro irmãs do jugo hitlerista, mas não obteve apoio e permissão do governo francês. Chegou a pagar para os alemães todo dinheiro que possuía – vinte e quatro mil dólares – para que eles as aliviassem dos maus-tratos. Elas morreram assassinadas nos campos de concentração. Já tomado pelos efeitos de metástases do câncer, Freud inicia a leitura de um romance de Balzac que aborda a fragilidade humana. Irá dizer aos seus: “É exatamente disso que preciso. Esse livro fala de definhamento e de morte por inanição”.
Nos seus últimos dias, Freud quase não tem mais forças para suportar o peso do pouco de vida que ainda lhe resta. O tempo todo ele está recluso em seu gabinete de trabalho. O câncer já havia vencido sua batalha e hasteado bandeira, demarcando seu território de conquista. Era o golpe final. O odor de uma vida, agora tomada pelas agruras de uma decomposição, invadia de tal maneira aquele recinto que o seu cãozinho – tão querido e tão companheiro – entra e logo corre para um canto, refugiando-se da morte que se anunciava. Era a chegada desta, que já o acompanhava há bons anos, que já não cessava de espreitá-lo, impedindo qualquer esquecimento a seu respeito.
Ela, a morte, estava ali se insinuando e querendo para si o que era seu e de mais ninguém. Freud sabia que a morte não compartilha nada com ninguém, é voraz. É única, não dá uma segunda chance a ninguém. Ela já se anunciava pelos meios mais intragáveis e impossíveis de serem negados. A presença real da morte, sua cara, seu odor, seu silêncio. O contrato estava selado e não havia nenhuma possibilidade de revogação. Ela estava inteira ali, com a fatura na mão. Era chegada a hora. Em vinte e um de setembro de 1939, ele se dirige a seu médico e amigo, Dr. Schur, toca levemente suas mãos e reivindica o que lhe é de direito: “Meu querido Schur, você se recorda da nossa primeira conversa. Você prometeu-me, então, que me ajudaria quando eu não pudesse mais agüentar. Já agora não passa mais de tortura, e a coisa não tem mais sentido”. O que restou foi o peso da realidade. Nada mais! O corpo foi cremado em Golder’s Green, na manhã de 26 de setembro.
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