Biografia
Galeria de Fotos
 
  Freud: O Homem e sua Obra  
     
 

O Encaminhamento de uma Descoberta

Freud nasceu a seis de maio de 1856, em Freiberg, na Morávia, parte do império austro-húngaro e que é atualmente conhecida como Pribor, na República Tcheca. Filho do terceiro casamento de seu pai, o então comerciante de lãs e têxteis, Jacob Freud, que tem 41 anos na época e já é pai de dois filhos de um primeiro casamento. Amália, mãe de Freud, tem 21 anos. Ela se dirigia a esse filho adorado sempre de uma maneira carinhosa: “mein goldener Sig” – meu Sig de ouro. Muito amado pelo pai, que não se cansou de transmitir-lhe os ensinamentos e os valores de um judaísmo clássico, foi circuncidado ao nascer e passou a receber uma educação judaica não tradicional e aberta à filosofia do iluminismo. É através de uma babá que ele irá transpor seus conhecimentos religiosos para além do judaísmo e de uma judeidade.

O menino Schlomo – Salomo – Sigismund Freud é o primeiro de uma prole de oito filhos. O filho mais velho do primeiro casamento de Jacob, Emmanuel, tem um filho de um ano, John – seu sobrinho um ano mais velho que ele –, que se tornará o amigo, companheiro e cúmplice da pequena infância de Freud. Desta relação ele irá carregar sentimentos ambivalentes de amor e ódio que no futuro serão o suporte de um movimento competitivo com seus pares. Portanto, seu pai já era também avô quando de seu nascimento. Aos 22 anos, Freud transformará seu prenome Sigismund, em Sigmund. Este sobrenome Freud, escolhido de uma lista, por seus antepassados, quer dizer alegria. Com isso, assinalam-se dois fatos no mínimo interessantes: ele nasce de um pai que já era avô e é tio de um sobrinho que é mais velho que ele.

A irrupção de uma crise econômica – seu pai não incorporou a modernização no seu ramo de trabalho, a saber, a chegada de novos equipamentos e máquinas – faz com que a família Freud deixe Freiberg, em 1859 para Leipzig e se instale em 1860 em Viena, alguns anos depois do início de uma política mais liberal para os judeus. Este fato será marcante na sua vida. A criança começa a sofrer algumas perdas. Uma vida mais difícil irá se apresentar à família Freud. O menino que via no pai a figura de um grande herói inicia todo um processo de quebra das idealizações.

A igualdade dos direitos políticos é concedida aos judeus em 1867, mas Freud já sentia na pele o que era, frente ao outro, ser judeu. Apesar de se considerar um “judeu ateu”, ele nunca renegou esse pertencimento. Mais tarde, irá escrever: “Meus pais eram judeus, também continuei sendo judeu”. Ele foi educado numa família em que a prática religiosa se tornara reduzida, embora as referências ao texto bíblico nele sejam onipresentes. Foi, também, um leitor precoce da história bíblica.

Freud foi um aluno brilhante, apresentava uma grande facilidade para aprender outras línguas, o que permitia um acesso direto a autores que fizeram data. No exame final do secundário recebe o destaque – summa cum laude – e é felicitado por seu estilo alemão. Queria estudar direito e, após muita dúvida, acabou enveredando pelo curso de medicina, em 1873, por influência de uma leitura do ensaio “Sobre a natureza” – atribuído a Goethe. Não se pode afirmar que Freud estivesse à vontade na medicina geral, por isso mesmo irá se reconhecer muito mais na neurologia e depois na psiquiatria. Mais tarde ele dirá: “Durante esses anos de juventude, não mais, de resto, que posteriormente, não experimentei nenhuma predileção pelo status e a atividade do médico. Eu era antes movido por uma espécie de desejo de saber”.

É na vida universitária que Freud sofrerá na pele os efeitos dos preconceitos anti-semitas. Ele não se acomoda na tão conhecida posição vitimada do excluído; pelo contrário, avança cada vez mais. Trilha o caminho de certa oposição intelectual, fundamentalmente nos cursos e leituras ininterruptas de Brentano, sobre Aristóteles. Sua efervescência nas leituras já aponta para uma busca, um objetivo, uma descoberta.

Ele queria ser alguém importante. O caminho que ele trilhava já deixava vislumbrar o anseio de se tornar reconhecido por alguma grande descoberta! Por isso mesmo não cessou de se manifestar contra o fato de poder se tornar objeto de um estudo biográfico, alegando que a única coisa que realmente importava eram as suas idéias – sua vida pessoal, dizia ele, com toda a certeza não poderia ter o menor interesse para o mundo. Com vinte e nove anos de idade Freud queima todos os seus papéis, artigos, cartas etc. E o fará periodicamente mais tarde. Pretende marcar assim a grande reviravolta de sua vida. Com efeito, trata-se de uma grande reviravolta, só que ele não o sabe. Acredita que se refere ao seu casamento e à renúncia em face da pesquisa. Eis como apresenta a coisa a Martha, sua noiva: “Destruí os meus diários dos meus últimos quatorze anos, as cartas, as fichas científicas, os manuscritos de meus artigos. Todos os meus pensamentos e sentimentos, no que concerne ao mundo em geral e a mim em particular, foram julgados indignos de um prolongamento de existência. Será preciso repensar tudo isto uma outra vez, e eu não tinha rabiscado pouco. Quanto aos biógrafos, que se lamentem!”.

Poucas pessoas foram tão fiéis a seu passado quanto Freud; mesmo dentre aqueles que conservam o menor documento. Mas ele sempre desconfiou da curiosidade dos biógrafos: “Não se pode ser biógrafo sem se comprometer com a mentira, a dissimulação, a hipocrisia, a adulação, sem contar com a obrigação de mascarar a própria incompreensão. A verdade biográfica é inacessível. Se a ela se tivesse acesso, não se poderia levá-la em conta”. De qualquer modo, a relação entre a técnica analítica e a arte biográfica é ambígua. Crer-se-ia que elas se assemelham e se complementam, mas existe uma oposição irredutível! Cria-se, a partir daí, uma necessidade de deslocamento em relação a uma possível biografia de Sigmund Freud: que pudesse ser realizada por um biógrafo, também psicanalista. Passados tantos anos, os verdadeiros discípulos de Freud reconhecerão que não será na sua biografia que encontraremos a raiz e o cerne da sua invenção, mas, sim, em sua obra. O caráter subversivo da sua obra realmente não está em seus dados biográficos.
Em 1882, Freud encontra Martha Bernays, por quem se apaixona e que se torna sua mulher alguns anos mais tarde. Um pouco entediado com a medicina geral – ele já está interessado em neurologia –, passa a se ocupar e a freqüentar o serviço de psiquiatria de Meynert, no qual prossegue trabalhos sobre a cocaína. Quando está a ponto de ser nomeado Dozent, obtém, graças a Brücke, uma bolsa para estudar na França.


 
 
voltar