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O Momento de Abertura
No outono de 1885, Freud irá a Paris em busca de novas aventuras no campo das neuropatologias. Era isso o que ele desejava, era para onde ele se dirigia. Uma inquietude inicial toma conta de seu espírito e isto lhe permite que avance mais em direção ao campo do saber. Ele quer progredir no campo das pesquisas da subjetividade humana. Sabia que faltava algo que pudesse explicar as razões dos sofrimentos da alma humana, portanto torna-se necessário que se dirija ao então berço dos estudos neurológicos. Já identificara o campo das doenças nervosas como o território a ser explorado, sabia em qual caminho seguir. Mas o problema estava em se questionar como e de que maneira isto poderia ser realizado. E nem por isto podemos afirmar que ele caminha às escuras, na medida em que, neste cenário, por vezes obscuro demais, algumas luzes se descortinavam aqui e ali. De todo modo, ele não se contentava com as respostas que tanto as causas biológicas quanto as fisiológicas ofereciam. Alguma coisa nele palpitava e desejava outras respostas.
Ao chegar a Paris, Freud irá acompanhar de perto os trabalhos do eminente médico e neurologista Jean Martin Charcot, no sentido de saber mais sobre as pesquisas que se processavam em torno da histeria e do método hipnótico. No Hospital da Salpêtrière, junto do mestre dos mestres das doenças nervosas, ele estava, de toda maneira, se sentindo em casa, à vontade para reiniciar uma nova etapa das suas pesquisas. Agora ele poderá desfrutar de tudo aquilo que o ensinamento de Charcot poderia lhe oferecer. Mas ele sabia também que ali era mais um entre tantos outros. Caberia portanto a ele, Freud, marcar uma diferença em relação aos seus colegas ali presentes. E ele estava aberto a um aprendizado que lhe dizia respeito, a se fazer ensinar pelo que emanava do ensino que emergia das apresentações do grande mestre francês.
Freud participa intensamente das conferências de Charcot e, inclusive, propõe traduzir suas obras para a língua alemã. Freud sempre trouxe o germe de uma clínica dentro de si. Ele pressentia que uma clínica que se fundamenta no paciente se baseia numa experiência única que diz respeito à singularidade em si mesma. Este fato permitia-lhe estar um passo adiante dos outros pesquisadores. O mesmo se passava em relação àquilo que ele escutava das queixas de seus pacientes. Freud portava uma convicção de que uma clínica que se fundamenta no sofrimento humano se baseia numa experiência única, que diz respeito à singularidade propriamente dita. Ele carregava consigo uma marca que poucos clínicos conseguiam alcançar, que era sua capacidade de se deixar ensinar, de se deixar surpreender pelo que o paciente dizia nas suas queixas. Esta seria a sublime posição de um verdadeiro clínico que opera com método, específico de uma construção de saber articulado. Um dom clínico de se fazer desarmar de preconceitos, para se fazer surpreender pelo que está sendo apresentado pelo paciente.
O corpo das histéricas é oferecido ao olhar dos espectadores durante as apresentações no teatro charcotiano, verdadeiros acontecimentos mundanos, mas é pela palavra, e sob hipnose, que Charcot trata o sintoma de suas pacientes. A iniciativa de Charcot o impressiona e, em particular, seu pragmatismo, sua desconfiança em relação às construções teóricas, de que é testemunha a resposta que ele dá a objeções teóricas durante um debate: “isso não impede de existir”. Freud irá retomar essa fórmula por sua conta e risco.
Freud chega como neuropatologista, mas logo, de imediato, o seu interesse se desloca e se dirige para um outro lugar, ou seja, para o campo da clínica propriamente. O que realmente irá aprisioná-lo é o que emana do ensino vivo que nasce do encontro entre o mestre e suas pacientes histéricas. Tudo se dirige para a personalidade de Charcot. Freud está tomado de um sentimento novo, que até então não havia experimentado em sua vida. Ele está aberto para mudanças e, por isso mesmo, vai mudar de direção e objetivos. Ou teria sido deslocado a despeito dele mesmo, por forças que o ultrapassavam? Ele irá, pouco a pouco, deixar suas pesquisas iniciais para colocar-se em cheio no teatro de Charcot. Despojamento, esta a melhor palavra. Alguma coisa se passa entre ele e essa estranha presença, entre ele e o Mestre parisiense. Freud está fascinado, apaixonado pela presença viva deste homem, pelo que brotará de um ensinamento.
Ele entra em contato não somente com as manifestações psíquicas das histéricas e sua suscetibilidade ao tratamento pela hipnose, mas, também, com o que se passa de um atravessamento de novas emoções dentro dele mesmo. De certa maneira, Freud já pressentia que algo de novo poderia brotar desse contato, dessa relação de palavras e gestos recortados pelas estruturas psíquicas. Ele experimentava e nomeava as emoções desconexas que, muito depois, ele pôde nomear a partir do atendimento de pacientes histéricas. É realmente isso! Freud encontrava-se numa posição de abertura, numa posição histérica de um se fazer ensinar, frente ao mestre. Por isso mesmo é que ele irá se desvelar, num júbilo transferencial, em relação à presença daquilo que emanava dos ensinamentos de Charcot. É o início de um novo caminhar.
Freud forja, então, um novo trilhamento em relação às suas pesquisas. Desloca todo saber em relação ao que já sabia sobre as doenças nervosas e pede mais de si mesmo, muito mais do que ele próprio imaginava poder dar. Ele caminha para uma outra direção, distinta daquela até então preconizada por ele a partir da medicina. Esta mudança de posição irá lhe custar muito caro. Mas ele não retrocede, verifica que está pronto para pagar o preço desta mudança radical. Sabia que estava dando um passo a mais, um passo importante na abertura de uma nova perspectiva sobre a vida humana. Ele experimenta, nessa nova aventura, algo que era distinto de tudo o que vivera até então, algo que iria produzir marcas na relação com seu desejo, ou seja, é o início de um avanço científico que o remete a um caminho novo sobre os fenômenos da vida psíquica – e sem retorno.
Freud irá experimentar, na relação com Charcot, um despertar de situações adormecidas que restavam num subsolo em seus longos anos de pesquisas e trabalhos científicos em sua vida acadêmica. Este encaminhamento irá causar conseqüências sérias, não somente em relação à pessoa de Freud, que sofre reviravoltas em sua relação consigo mesmo, mas, fundamentalmente, frente à comunidade médica da qual fazia parte e da qual dependia. Este encontro possibilitou que ele se colocasse numa posição de abertura, de aquiescência e de assentimento a este algo novo a surgir, a um movimento de se fazer ensinar pelo viés de um caminho de incertezas, um caminho de insegurança, que é próprio da vida inconsciente. Ele reconhece um algo a mais que se aloja numa outra região a ser explorada no ser humano, que nada tem a ver com um campo do conhecimento, que se apresenta pelo viés de sintomas, às vezes e até mesmo no próprio corpo. Descobre, então, uma nova linguagem da vida psíquica, a via do corpo. Num só golpe, ele, Freud, irá se deixar apreender por aquilo que emanava das pacientes histéricas.
Portanto, não é sem sofrimento que Freud vai abandonar os conhecimentos e os preconceitos científicos ligados à medicina para abrir portas de caminhos inaugurais dessa outra vida, para que possa experimentar novas emoções. O que não era tão fácil assim de realizar, na medida em que nele há muito já habitava uma formação científica, conservadora demais. Mas há, nesta empreitada, uma particularidade que dirá respeito à descoberta da psicanálise. Freud vai se interessar, sempre e sempre, tão somente por aquilo que o mestre deixa cair. O preconceito científico por vezes obscurece e impede que o mestre possa enxergar esta ou aquela preciosidade. Charcot, mesmo com seu brilhantismo fenomenal, deixou escapar algo de precioso no seu ensino, algo que escorreu pos suas mãos. O mestre, por estar aprisionado a um saber pré-estabelecido, não conseguia realizar a leitura necessária de um inconsciente presente nos sintomas das pacientes, o que está na base dos sintomas histéricos. O interesse de Freud se direciona justo pelo que está velado no mestre, e que este não pode ou não deve usar, que não pode se autorizar por uma razão de preconceito científico, ou seja lá o que for. E será justo pelo viés daquilo que escapa aqui ou ali que Freud irá colher seus frutos.
Eis aí o gesto magistral de Freud, que o coloca como um verdadeiro caçador de restos, de migalhas. O que escapa ao então já concebido! Posição difícil esta de abrir mão do já sabido, dos conhecimentos científicos que há muito impregnavam sua alma. Sua busca se inicia, justamente, no ponto em que tantos outros pesquisadores das doenças nervosas não conseguiram alcançar, ou seja, sair de uma posição de saber, se deslocar, quebrar todo e qualquer preconceito intelectual, estar aberto e à altura do novo, se fazer surpreender. Nada mais que isso!
Freud assiste às apresentações de doentes que Charcot coordenava e verifica que alguma identificação com a presença do mestre francês está realmente se processando. Com entusiasmo, ele dirá à Martha: “Charcot, que é um dos maiores médicos e cujo bom senso toca a genialidade, está simplesmente a ponto de arruinar todos os meus desígnios e opiniões”. Freud saía das aulas de Charcot completamente transtornado, esburacado em sua divisão subjetiva. O teatro de uma subjetividade estava aberto, constituído a partir dos traços das doentes histéricas, com suas paralisias, convulsões, contraturas, crises, ataques. Ele se deixava penetrar e inseminar pela transmissão de saber inovador. Isso rompia e dilacerava o saber e o conhecimento que ele já trazia de alguns anos de pesquisas na área da medicina e, sobretudo, no campo da neuropatologia.
Freud está colocado, aí, na posição de despojamento, fundamentalmente, de seus valores antecipados, de suas amarras a enigmas paralisantes, de suas identificações limitantes de um projeto. Sua presença neste teatro permitiu que ele lançasse a pedra de base de uma causa psíquica: junto das histéricas, mundanas e anônimas. Freud então irá viver intimamente os relatos de um tormento de traumas da infância, de abusos sexuais e estupros. As idéias novas brotavam na sua cabeça de uma forma fulgurante; ele segue dizendo a Martha: “Se a semente dará fruto um dia, não sei. Só sei que nenhum ser humano me afetou tanto assim”. As idéias que gestavam dentro dele salpicavam de uma forma louca, voraz. Ele não cessava de se ver frente às mensagens que escapavam, que eram sempre novas, paradoxais, fora de um consenso lógico comum. Estava Freud ali se fazendo desnudar de todo um invólucro de uma ciência estabelecida para se entregar a uma paixão pelo que emergia desses ensinamentos. Aqui, ali, transitando, buscando se oferecer numa acomodação das estruturas psíquicas que dançavam entre ele, Freud, e o cenário que ali se descortinava, no cenário das histéricas.
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