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Uma Reviravolta
De volta a Viena, em 1886, Freud se casa com Martha. Os filhos homens recebem nomes de mestres que foram importantes em sua vida. Inicia sua clínica de consultório a partir do método hipnótico. A utilização da sugestão sob hipnose para fins de uma terapêutica vai orientar suas pesquisas.
Qualquer abordagem sobre uma possível demarcação do início da psicanálise passa, necessariamente, pelos Estudos sobre a histeria, obra publicada em 1895 por Joseph Breuer e Sigmund Freud. Encontraremos aqui os casos clássicos de pacientes histéricas (a exceção fica para o Caso Dora), que revelam não somente o traço que demarcaria uma condição desejante de todo ser humano (um desejo insatisfeito), mas fundamentalmente os elementos que possibilitaram o nascimento do método analítico.
O caso da paciente Anna O. (Bertha Pappenheim) permitiu uma abordagem da histeria como doença das reminiscências psíquicas. Foi a partir desse caso que surgiu um novo método de tratamento psíquico, um método de tratamento inédito até então, que era baseado na catarse e na ab-reação. A esta jovem de vinte e um anos de idade será atribuída, por alguns autores, a invenção da psicanálise. Ela irá nomear esse método de talking cure, um tratamento que já era realizado pela fala, e empregou o termo chimney sweeping para designar uma forma de rememoração por “limpeza de chaminé”. O termo empregado por Breuer foi “tratamento catártico”.
Anna O. era uma jovem inteligente, falava diversas línguas e era dotada de uma enorme sensibilidade em relação aos pobres. Os sintomas histéricos surgiram após a doença do pai (tuberculose). Ela apresentava contraturas, alucinações, acessos de tosse, distúrbios da visão, da motricidade, da linguagem. Comunicava-se com o médico Breuer misturando várias línguas. Este caso irá ocupar um lugar de extrema importância na própria formação do analista, justamente por colocar questionamentos sobre o lugar do analista na direção do tratamento naquilo que se inscreverá como desejo do analista.
Estamos em 12 de maio de 1889. O cenário é o próprio consultório de Freud. Ele está com sua paciente chamada Emmy von N. (Fanny Moser) e recebe, de forma intempestiva, da boca dessa senhora, o enunciado da regra fundamental que irá fundar o método analítico. Segue-se o relato, são as palavras de Freud, presentes nos Estudos sobre a histeria: “Por um desvio qualquer cheguei a lhe perguntar como as dores gástricas tinham acontecido e de onde provinham. Acho que essas dores sempre acompanhavam nela os acessos de zoopsia. Com muita reticência, ela me responderá que nada sabia disso”. Este ponto irá demarcar algo interessante e que aponta para alguma coisa que emerge inesperadamente do inconsciente do sujeito, na medida em que esta frase, que advém como resposta, demonstra, de certa maneira, que o sujeito sabe mais do que supõe saber e que, justo pelo fato de tanto saber, ele se esforça ao máximo por esquecer. “Dou-lhe até o dia seguinte para se lembrar. Ela me diz, então, num tom muito mal-humorado, que não devo lhe perguntar sempre de onde provém isto ou aquilo, mas deixá-la contar o que ela tem a dizer”.
Aí está, certamente, o nascimento do método que viria ser aperfeiçoado e utilizado pela psicanálise, demarcando o início de uma nova descoberta, a saber, a psicanálise. Freud se deixou reconhecer, aí, no caminho de uma outra cena. Ele irá sublinhar, para esta paciente, que realmente ela porta um outro saber, que ela sabe (de alguma maneira) de onde nasce e brota aquilo de que ela se queixa e que tanto a faz sofrer. Este movimento que abre para o diálogo analítico irá situar um saber no registro da lembrança. E, por outro lado, o fato de a paciente Emmy lhe responder que ela nada sabe disso, nada nesse nível da lembrança, mas – e essa é a única maneira de entender que há aí uma denegação – que efetivamente existe um saber que se constitui no que ela tem a dizer. O recorte dessa fala já iria apontar os elementos estruturais do dispositivo analítico no tocante aos fatores determinantes de uma transferência. O dispositivo é colocado a funcionar a partir da regra fundamental.
Freud verifica que o paciente sabe de alguma maneira de onde vem isso que o assola. Basta que se crie a condição necessária de fala. Deixar o paciente falar e que neste ato ele possa falar sem se preocupar com aquilo que está falando. Que ele não se deixe tomar tanto pelas conveniências que sempre estão presentes numa relação de fala. Que ele possa falar sem, no entanto, se preocupar com o que possa daí advir, que ele se deixe ultrapassar pelas palavras. É como se Freud notasse que tão somente caberia ao médico – ou seja, o então futuro psicanalista – criar as condições necessárias para que o paciente pudesse falar sem se preocupar com o que estivesse falando. Ele observa e registra que dali sairá algo. Esse algo que quase sempre advém como uma surpresa irá marcar a experiência psicanalítica. A essência do processo está aí nesse algo novo! Ou seja, Freud pede simplesmente que o paciente fale! O próprio paciente constata que ele mesmo é a resultante dos elementos de sua fala. Ao falar, o paciente verifica – com certa vergonha, certo constrangimento, certo temor e, até mesmo, certo júbilo – que a qualquer coisa a dizer é regrada e que há algo que ele desconhece e o ultrapassa. Que há algo mais naquilo que ele fala, e que é estranho a ele mesmo.
Em 1892, Freud inicia o tratamento da paciente Elisabeth Von R. (Ilona Weiss). Esta apresentava um quadro clínico onde as queixas residiam em dores nas pernas e dificuldade para andar. Freud atribui seus sintomas a causas sexuais. Percebeu que, ao pressionar a coxa da paciente, fez com que ela experimentasse um prazer erótico que ela rejeitava na vida consciente. Pouco utilizou a técnica hipnótica e passou a aperfeiçoar um método de levar o paciente a se concentrar, um método de análise psíquica: deitada e de olhos fechados, ela era solicitada pelo médico a dizer tudo o que lhe passava pela cabeça. Quando se recusava a responder, Freud tentava persuadi-la. Esse foi, para Freud, o primeiro passo em direção à técnica da associação livre e, mais tarde, para a elaboração da noção de resistência. Ele percebeu que Elisabeth estava apaixonada pelo cunhado. Ela procurava rechaçar, de sua consciência, os desejos de morte, sentidos a respeito de sua irmã falecida em conseqüência de uma enfermidade grave.
Há, nos diz Lacan, um momento na obra de Freud – entre 1920 e 1924 – em que ele irá se antecipar numa certeza no sentido de um avanço fenomenal da sua criação. Ele simplesmente vai dar um salto nas suas elaborações, na extensão de uma construção teórica e clínica, no sentido de demarcar a presença do inconsciente nas relações sociais.
Em 1923 foi diagnosticado um câncer na mandíbula de Freud, que sofre a primeira cirurgia. Ele sabe, portanto, que já não lhe resta muito tempo de vida e vai direto ao fundo do problema, a saber, a compulsão à repetição como um fundamento da clínica psicanalítica. Ele já havia amadurecido a tese fundamental da presença efetiva de uma pulsão de morte em todos os fenômenos da vida. Em Mais além do princípio do prazer introduz um novo dualismo pulsional para dar conta da assiduidade deste fenômeno da clínica, a saber, a compulsão à repetição, na medida em que se verificam situações de origem inconsciente e, portanto, difíceis de controlar; essa compulsão leva o sujeito a se colocar repetitivamente em situações dolorosas, réplicas de experiências antigas. Há, aí, um caráter demoníaco na compulsão à repetição, o que permite avançar em seus estudos sobre o caráter destrutivo e autodestrutivo tão presente no masoquismo do humano. As pulsões de morte se contrapõem às pulsões de vida, a Eros, e tendem para a redução completa das tensões, vale dizer, apresentam uma tendência de recondução do ser vivo ao estado inorgânico. Esta pulsão de morte, muito antes de se voltar para o exterior sob a forma de agressividade, volta-se para o interior do sujeito humano como uma pulsão de destruição. Será, justamente, esta a moção pulsional que permitirá a Freud explicar os paradoxos dos elementos do inconsciente que se apresentam nos conflitos do ser humano: os paradoxos do masoquismo, das autocensuras, das resistências que se particularizam numa reação terapêutica negativa e dos sentimentos inconscientes de culpa. A formulação sobre os parâmetros de uma clínica, psicanalítica, é ampliada e colocada nestes termos: como pode a representação do sofrimento ser uma fonte de prazer, ou seja, como pode o sujeito se queixar justo daquilo que o faz gozar?
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