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  Freud: O Homem e sua Obra  
     
 

A prática freudiana

“Paradoxalmente, a diferença que garante a mais segura subsistência do campo de Freud é que o campo freudiano é um campo que, por sua natureza, se perde. É aqui que a presença do psicanalista é irredutível, como testemunha dessa perda”.
Jacques Lacan, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise

A psicanálise nasceu um dia a partir do desejo singular de seu fundador, Sigmund Freud. Este acontecimento como um ato de criação, ele mesmo se escreverá como algo da ordem da grandiosidade de uma invenção, na medida em que abre caminho para um campo novo que advém como algo originário, inaudito. Mesmo que se afirme que a psicanálise passou a existir a partir de um corte com a clínica médica praticada pelo seu fundador, também não poderíamos deixar de afirmá-la, em sua origem, sob os auspícios desta. Houve aí, sim, uma ruptura, a partir destas raízes originárias do discurso médico. Freud era um jovem médico vienense que percorria o território traçado a partir de uma formação médica clássica e praticava sua clínica sob o olhar e o viés do discurso médico. Discurso este que será regido por uma diretriz lógica que é próxima do discurso do mestre, o discurso do senhor, que será nomeado por Lacan como “avesso da psicanálise”.

Freud segue, portanto, outro caminho. Um caminho distinto daquele que se propõe inicialmente. Ele irá se desgarrando, pouco a pouco, de sua origem acadêmica para fundamentar seus passos rumo a um novo trilhamento. Esta mudança de rota será vital para sua descoberta. O próprio Freud irá afirmar, tempos depois, ter se afastado da medicina e que não se via mais identificado a este discurso: “Durante esses anos de juventude, não mais, de resto, que posteriormente, não experimentei nenhuma predileção pelo status e a atividade de médico. Eu antes era movido por uma espécie de desejo de saber”. Freud rompe radicalmente com a ciência médica e busca as razões do sofrimento humano em outro lugar. O sofrimento, para ele, já havia se deslocado, nascia da boca do paciente. O sofrimento humano somente lhe interessava quando colocado em palavras, por uma via da fala. Esta clínica, que nasce realmente como algo novo, leva em conta a subjetividade do paciente, justo aquilo que estará para sempre recalcado na “relação” médico-paciente.

A psicanálise é uma invenção de Freud. Portanto, ela é freudiana! A criação de Freud, como o que se escreve de um desejo fundador da psicanálise, está na ordem de um ato analítico: houve, aí, uma ruptura radical, e o novo, que daí pôde emergir, deu origem ao campo freudiano. Este campo advém como algo que é originário. Algo ficou, aí, para trás, não restando mais espaço para uma clínica, médica, que privilegia um olhar sobre um corpo que se apresenta em sofrimento. Esta clínica inicial, que tanto serviu a Freud durante algum tempo, restou no ninho. Ficou para trás. Ruptura, esta será a melhor palavra para definir este deslocamento.

Trata-se de uma descoberta originária que inaugura no seio do processo civilizatório um verdadeiro corte epistemológico que faz emergir uma nova ordem discursiva que tem como objetivo emprestar um estatuto científico à psicologia e seus campos afins. O nascimento da psicanálise cria uma autêntica ruptura no seio das ciências até então chamadas positivas, as ciências ditas humanas, que constituíam o centro da reflexão filosófica da relação do homem com o mundo. O advento da psicanálise ultrapassa em muito todas as marcações de uma época. Pode-se dizer que a descoberta freudiana do campo do inconsciente abre portas de uma nova era.

Como uma descoberta germinal que opera pela via de uma tessitura inconsciente, a psicanálise está na ordem de uma criação que se articula pela via de uma produção de saber inconsciente. Sua operatividade consiste no trabalho de elaboração deste saber, ou seja, numa vertente que se demarca num não cessar da colocação em ato de uma experiência de discurso. Uma experiência real, da fala e da linguagem, a partir de uma inovação discursiva, que se escreverá como revolucionária. A partir daí emergirá uma clínica nova, isenta, despregada de todo e qualquer horizonte delimitador, social, político, cultural. Esta clínica está, portanto, divorciada dos parâmetros de uma moral vigente, desta ou daquela vertente, supostamente ética, que possa advir de preconceitos, de boas intenções, de uma simpatia. Pelo contrário, uma clínica antipática. Uma clínica sem cumplicidade alguma com outras já existentes. Uma clínica, portanto, do particular do um por um.

A psicanálise passa a existir, então, a partir do método inventado por Freud, sendo que esta clínica não se constituiu embalada num crescente de respostas rumo a uma nova formação. Não houve aí um caminhar tranqüilo e retilíneo. Pelo contrário, a angústia e o sofrimento estavam presentes a cada passo dado por Freud. Um encaminhamento de passos derrapantes e conturbados, sem saber muito bem onde isso poderia dar. Houve aí, sim, um corte, a partir das raízes originárias advindas de um discurso médico. Embora esta construção tenha emergido como resposta a uma construção lógica, de vários tempos lógicos, por onde se escreveria uma textura diferencial, deveu-se, sim, à irrupção de algo novo, distinto de tudo aquilo que ficou aqui ou ali, nos escombros de um passado! Algo novo, nas passadas de uma subversão de um sujeito que ali se escreveria. De tudo que ficou passado. Algo novo e nada mais! Um autêntico corte epistemológico. Como também não podemos admitir que a invenção deste novo campo tenha se dado de uma só vez, ou, como se diz, da noite para o dia, a partir de um passe de mágica. Nada disso! Muita tinta rolou para que esse ato de fundação viesse se inscrever. Deslocamentos incessantes de posições subjetivas de Freud frente a uma apreensão de endereçamentos de queixas e sintomas de pacientes que dele se aproximavam em sofrimentos psíquicos.

A descoberta freudiana está presa ao forçamento de uma novação, por onde se experimenta o não-cessar pontual de um verdadeiro sujeito da experiência psicanalítica. São os tempos de uma luta diária que fazem valer esta descoberta originária. Ela irá se desenrolar numa superfície no mínimo paradoxal, cujo cenário, contingencial, por excelência, marca os encontros e desencontros no campo novo de uma pesquisa. Muitas reviravoltas, portanto.

O sujeito humano que busca uma psicanálise tem como objetivo solucionar os seus impasses frente ao seu desejo, suas dificuldades na relação com o outro, suas dificuldades de avançar na vida. Ou seja, ele quer minimizar seu sofrimento que navega na onda da dor de uma indeterminação. Este será o início ou uma abertura de análise, se quiserem, e ela vai se estabelecer no contrapé de um manifesto coroado de queixas: é o seu álibi.

O paciente, ao falar, certamente terá chances de se desprender das suas amarras paralisantes, de suas inibições, de seus sintomas e das suas angústias, para, então, abrir as portas da construção de uma demanda. O sujeito em sofrimento está na ordem daquele que não consegue querer aquilo que deseja. Muitas coisas impeditivas estão aí nesse fosso entre o sujeito e seu querer. Ao se dirigir rumo a uma psicanálise, o exercício da fala é que dará o seu tom, permitindo que se constitua um cenário esdrúxulo e paradoxal, por onde se escreverá uma verdadeira história deste novo sujeito a surgir.

A experiência psicanalítica, aos poucos, será construída tão somente graças aos fenômenos da fala e da linguagem, no sentido de motivar o nascimento do sujeito do desejo como fruto desta experiência germinal. O seu nascimento vai depender do quanto de uma relação paciente e psicanalista poderá ceder naquilo que, de início, estava ali como pessoas ou indivíduos, ou seja, a relação pessoa a pessoa cede. A experiência que funda este sujeito, como sujeito da experiência freudiana, somente se escreverá se a presença do psicanalista se transmutar no sentido do ato analítico, constituindo a seguinte tônica: que o inconsciente é estruturado como uma linguagem e que, na experiência psicanalítica, ele se constitui como um discurso pelo qual o sujeito irá se demarcar na sua relação com o Outro. O sujeito da experiência analítica se constitui graças a um movimento de conquista num trabalho sob transferência. Este sujeito poderá realmente se dizer a partir de um lugar distinto daquilo que ele teria sido em sua origem, naquilo que ele teria sido como objeto frente ao desejo do Outro. Este movimento permite que o sujeito venha se desembaraçar daquilo que realmente o constrange frente à vida. De todo modo, uma cura analítica pode acontecer a partir de um bom uso das palavras. Esta tese inaugural de Freud pode ser comprovada numa trajetória analítica enquanto tal.

A tese lacaniana que vem afirmar que o inconsciente é estruturado como uma linguagem e que o que numa experiência analítica se articula como discurso irá dizer, com clareza, o que se passa realmente no processo psicanalítico. Por isso mesmo pode-se afirmar que a psicanálise é uma experiência de discurso por onde se desvendam as verdadeiras estruturas que regem a vida do sujeito na sua relação com o Outro. Uma experiência real entre o paciente e o seu psicanalista pela via da fala e da linguagem, a partir de uma reversão inovadora dos discursos e que se escreverá como uma operação revolucionária. A partir daí emergirá uma clínica nova, isenta, despregada de todo e qualquer horizonte delimitador, social, político, cultural. Esta clínica está, portanto, divorciada dos parâmetros de uma moral vigente, desta ou daquela vertente supostamente ética, e que comparece muitas vezes carregada de preconceitos, de boas intenções e, porque não dizer, de uma simpatia. Pelo contrário, com a psicanálise o que teremos é uma clínica antipática a todo e qualquer preceito dado antecipadamente. Uma clínica sem cumplicidade alguma com outras clínicas já existentes. Uma clínica, portanto, do singular.

Freud não estava só no início desta descoberta. Após longa trajetória de estudos e pesquisas no campo da neurofisiologia e neuropatologia, como também estágios com personagens célebres no campo clínico das doenças nervosas, principalmente na França, Freud irá se aproximar, em todos os sentidos, de Joseph Breuer. Momento difícil e conturbado este de uma apreensão dos elementos do inconsciente.

Uma descoberta paradoxal frente à ciência e seu discurso tão clássico e previsível, como também, e por que não, frente a todos os outros discursos que denotam o território do saber. Esta nova tomada de posição de Freud frente a suas pacientes emerge gradualmente – isso de serem pacientes mulheres certamente quer dizer alguma coisa –, a partir de saltos e rupturas no campo do saber. Ela foi a resultante de um longo trabalho de pesquisa clínica e teórica através de uma profunda elaboração do que se processava na vida psíquica dos pacientes e de seu inventor, Freud. Por isso mesmo, por vezes se torna necessário o trilhamento pela maneira como as questões se colocaram a ele e, com isso, percorrer a estrutura pela qual ele as respondeu.

O importante a enfatizar é que a psicanálise passa a existir a partir do método inventado por Freud – ou por uma paciente sua –, e este processo não poderá ser concebido como um movimento crescente, progressivo, linear e cumulativo, embora ele jamais tenha abandonado uma só de suas idéias, até mesmo quando as ultrapassava. Importa marcar, como já fizemos, que, embora os elementos biográficos apresentem alguma importância, não será daí que vamos extrair a raiz de subversão que esta descoberta veio trazer à luz.

O encaminhamento de Freud rumo a esta descoberta germinal tinha um endereço certo: o conflito e a divisão que habita o ser humano, a relação louca e problemática que o sujeito mantém consigo mesmo e com o outro. Para Freud, não vai se tratar de modificar formas ou de se insurgir contra a ordem estabelecida. É a imagem que o homem tem de si mesmo – seja qual for o contexto cultural ou social – que será recolocada em questão. Por isso mesmo, na base da sua descoberta Freud estava às voltas muito mais com o sofrimento do homem, a saber, suas inibições, seus sintomas e suas angústias, ou seja, suas neuroses. Nada mais que isso! É lógico que daí emergiriam conseqüências inesperadas que tanto Freud quanto seus discípulos somente puderam perceber depois. Isso é próprio das grandes descobertas, ou seja, estas resultantes que não cessam de promover o novo, das quais só se sabe depois: só-depois.

Não é certo que Freud tenha sido sensível à eclosão de uma modernidade, embora o nascimento da psicanálise não pudesse ter aparecido sem o nascimento da ciência moderna no século XVI. Seus gostos o levavam bem mais para o classicismo cultural que para qualquer atualidade. Estava muito mais, para não dizer inteiramente, à espreita do novo que do moderno. A descoberta da análise se inscreve, assim, em contraponto ao advento de uma nova sensibilidade mundana. Freud não cessará de nos demonstrar que o homem terá, enfim, abandonado uma ilusão a mais: a de que seu eu [moi] era mestre em sua própria casa. Do amor ao desejo, enquanto condição de despojamento das amarras ilusórias, no sentido de uma proposição de uma maior liberdade do ser humano.

Cada psicanálise será uma nova psicanálise, não há duas iguais. Isso fala muito em direção ao novo – o real do trauma psíquico – que, de maneira alguma, quer dizer o mesmo. O ponto real do núcleo patógeno se repete sempre como o mesmo, mas sempre de uma maneira diferente! Freud descobre muito cedo o valor e o peso da palavra na direção de um tratamento analítico. Ele se deixava ensinar pelo paciente, se oferecia como um verdadeiro ninho às palavras e às questões que brotavam da boca das histéricas que a ele se endereçavam. As palavras que sempre passavam despercebidas por outros permaneciam em processo de gestação no próprio Freud.

Aos poucos, e a cada vez mais, lá estava Freud se soltando das amarras de um saber já sabido, um saber constituído e de uma posição e se oferecendo a partir de uma posição de não-saber. Não-saber, à espera de algo novo. O seu desejo estava voltado tão somente para o novo. Permitia que o paciente falasse livremente no sentido de que dali pudesse nascer um sujeito particular. O sujeito que se constrói na cura pela palavra irá se escrever como sujeito da experiência analítica. Daí poderá sair alguém que é menos pedinte, menos vítima do mundo. Teremos, certamente, um sujeito determinado e decidido no seu querer e que, por isso mesmo, não espera mais nada do outro. Um sujeito desejante, que pode querer e, por isso mesmo, irá se divorciar das queixas que tanto fazem gozar o sujeito.

Este movimento foi difícil e custoso para o inventor, que teve que se despir totalmente da posição de médico, ou seja, este que apresenta, na base de seu ofício, o desejo de curar. Freud sabia da importância dos recursos literais que fundamentam o processo analítico, na medida em que, desde o início de sua descoberta, verificou que esta seria a única possibilidade de sobrevivência da psicanálise. Para isto, para que os elementos e os traços da vida de um sujeito possam advir no âmbito da fala, é necessária a presença do analista. Freud sabia acolher a fala que a ele se endereçava: “criem as condições necessárias para que o paciente fale o que ele tem para falar, sem conveniências e sem pudor, ou seja, que ele possa falar sem se preocupar com o que está falando”. Deixar o paciente falar! Certamente, alguma coisa poderá advir daí. “Vocês, analistas, terão que se privar da posição de poder que a transferência lhes outorga. À primeira vista esta seria uma tarefa simples demais. Depois veremos ser esta uma tarefa muito difícil na condução de uma psicanálise: deixar o paciente falar livremente!”.

A psicanálise nasce justamente a partir de uma sensível mudança de posição do médico Freud frente a seus pacientes. Este autêntico gesto de coragem de um médico vienense junto aos seus pacientes lançou as bases de fundação do que surgiria como uma invenção. Verdadeira revolução no seio do discurso médico, não somente pelo rompimento de uma moral vigente naquela época, na medida em que se tratava de uma descoberta da sexualidade na criança, uma sexualidade infantil, ou seja, o perverso-polimorfo, como, fundamentalmente, pela privação, que ele se propôs, de uma posição de poder – que se estabelece em toda e qualquer relação médico-paciente.

Uma clínica ética, portanto, a partir da descoberta do inconsciente, que leva em conta tão somente o singular. Do um por um, devido a um inconsciente como mera pulsação, como algo que quer ser! Freud estava ligado ao caráter ético do inconsciente, de uma pura insistência. Constata na sua clínica que o inconsciente não se atém aos aspectos ontológicos do ser humano, no sentido de procurar responder às perguntas sobre o ser – se algo é ou não é, ou, até mesmo, aos aspectos amplos de gnosiologia, que se atêm ao campo de um conhecimento para saber se as coisas podem ou não ser. Nenhum padrão poderá ser dado antecipadamente, nada se aterá a este ou aquele parâmetro de um julgamento moral, ou até mesmo social. Nada, a não ser a existência de uma nova temporalidade do que seria o inconsciente que Freud vai aos poucos descobrindo: o só-depois!

O gênio criador de Freud avança e descobre o inconsciente – diga-se que este já existia nas técnicas primitivas de cura que utilizavam a hipnose, o transe, o exorcismo, às vezes com o uso de drogas. Nessas técnicas vamos encontrar o lugar comum de origem do sacerdote e do médico –, inventando o método psicanalítico, através do qual a expressão do inconsciente era a única solução para alcançar o núcleo do recalcamento, provocador de todas as patologias mentais. Freud separa radicalmente a sexualidade do fundamento biológico, anatômico e genital para pesquisar sua representação subjetiva e social. Um verdadeiro golpe na moral clássica vigente e uma indelével ruptura epistemológica com a sexologia como ciência natural do comportamento sexual.

Freud então começa a constatar aquilo de que já desconfiava: o inconsciente – que viria ser nomeado desta maneira – está presente e governa todos os atos da vida de qualquer ser humano, mesmo que não se queira saber: de uma vida amorosa – nos seus encontros e desencontros –, de uma história profissional – no âmbito de um sucesso, de sucessivos fracassos, de uma mera mediocridade –, dos laços afetivos que denotam as relações com o outro – os mais amorosos, os mais odientos, os mais injustificados –, na vida de cada um – os que gozam mais no sofrimento, os que criam filhos dependentes. Os desencontros vão mais além e podem percorrer áreas infindas da violência e da agressividade, ou seja, aqueles conflitos que se apresentam nas relações agressivas e destrutivas entre pais e filhos. São pais assassinados pelos próprios filhos, são filhos que matam seus próprios pais, são pais que fazem filhos indesejados, os que verdadeiramente não querem aquilo que desejam!

Ou seja, mesmo que não queiramos saber do insensato e paradoxal que habita nossas vidas, ele é estrutural em cada um de nós. Puramente louco e paradoxal, o registro deste conflito permanente que carregamos em nossa vida. O inconsciente determina a vida do sujeito humano para esta ou para aquela direção, até mesmo para adoecimentos físicos.

Hoje, mais do nunca, não necessitamos mais de exemplos de uma clínica para traduzir fatos de uma psicopatologia da vida cotidiana, pois temos a imprensa falada e escrita que pontua estes acontecimentos: o homem que naquele dia mudou sua rotina no trânsito esqueceu o filho – ainda bebê – no carro, debaixo do sol. Esse pai que, no só-depois, passa mal, se angustia, ele mesmo já sabia – de certa maneira – do esquecimento e da morte de seu filho.

Cada psicanálise será uma nova psicanálise, não há duas iguais. Freud descobre muito cedo o valor criativo da palavra na direção de um tratamento analítico. Como dissemos, ele deixava o paciente falar livremente, colocando o sujeito da experiência analítica frente às suas próprias descobertas: aprender com seus pacientes se torna uma característica necessária da descoberta freudiana, pois Freud levava a sério tudo o que até então fora deixado de lado em nome dos preconceitos. Quanto a isso ele iria deixar uma verdadeira marca no ensino da técnica analítica, ao dizer para os psicanalistas iniciantes: tomem cada caso como se fosse único. Esqueçam o que já sabem para que possa emergir o que ainda não sabem (o inconsciente). Ele também aponta a importância dos recursos literais que fundamentam o processo analítico, na medida em que, desde o início da sua psicopatologia, verificara a presença dos significantes e das letras na determinação inconsciente. Ele via no recurso ao literal a única possibilidade de sobrevivência da psicanálise.

Somente uma prática psicanalítica pode oferecer condições necessárias para que um sujeito venha a se desvencilhar das amarras do seu sintoma, ou seja, do que o faz sofrer. Ela é a única capaz de uma investigação dos pontos onde o ser humano se vê ultrapassado pelo seu inconsciente. Esta clínica nasceu graças ao gênio criador de Freud, àquilo que ele pode nos ofertar como uma verdadeira dádiva, como um autêntico gesto de amor. Ele próprio se fez objeto de suas pesquisas, fazendo-se passar ao público sem se preocupar com isso ou aquilo! Ele, Freud, estava em cheio no relato de sua psicopatologia da vida cotidiana, com seus sonhos, seus temores, sua neurose. Tudo isso numa provação de angústia e sofrimento, como o mais íntimo de seu ser. Próprios a todo e qualquer ser humano, sem dúvida. O ensejo clínico exemplar se fazia acompanhar de atos de uma conquista freudiana que corriam na paralela de sua existência, ora numa complexidade profissional, ora nos seus transtornos pessoais, a saber, sua patologia mental. A emergência desta clínica deveu-se à incidência de um não cessar de rupturas, tornando este gênio criador alguém desprovido de pudor e constrangimento, distante de qualquer compaixão, comiseração e, até mesmo, qualquer juízo de valor. Esta boa perversão de um gênio criador.

Por isso mesmo, pode-se dizer que a psicanálise ela mesma é única: ela nasce, e se estabelece, como um campo radicalmente distinto de todos os outros campos do saber. E este fato lógico deve ser levado às suas últimas conseqüências. Uma clínica psicanalítica tem como objetivo alcançar uma verdade sobre o verdadeiro, vale dizer, o que remete à sua implicação do estatuto particular da verdade. Verdade sobre o desejo inconsciente, fulgurante, irredutível a um enunciado, que o trabalho do analista – seja na prática ou em seu esforço de teorização da descoberta freudiana – busca transformar em saber. Verdade de um desejo inconsciente que somente será cercado, na medida em que há, nisso tudo, uma impossibilidade lógica de nomeação. Uma psicanálise, ela mesma vem para curar – é lógico que somente aqueles que se propõem e se oferecem ao método analítico – o ser humano de seus excessos. Excessos de amor e de ódio. Paixão! Talvez pudéssemos dizer que a verdadeira doença mental está no fato de alguém querer permanecer numa posição de querer ser amado.

A herança freudiana reside justamente numa prática que é distinta de tudo o que já se viu ou existiu até então, ou seja, uma prática inaudita, que se instaura como regra fundamental: diga tudo o que vier à sua cabeça, simplesmente fale! Tome a palavra e experimente falar sem se preocupar com o que você está falando. O psicanalista e seu paciente, numa relação que é única e particular. Uma relação que se processa no um por um e que será selada pelo sigilo. Condição única, exemplar, de se criar com o outro um compromisso com a palavra.

Uma cura pela palavra, como isso é possível? O paciente vai ao psicanalista porque há coisas que o fazem sofrer. São situações mais fortes, que estão além de seu controle. Coisas mais fortes que ele mesmo e frente às quais ele está dividido. Freud muito cedo observou a divisão do sujeito frente aos seus sofrimentos: é ele, mas ele contra si mesmo. Ele fala sobre aquilo de que sofre e que o atormenta e pede que o analista cuide dele. O analista – deslocado de seu campo visual – estará aí justo para acusar a recepção do que se ouve. Daí poderá sair um saber. A descoberta fundamental de Freud está justamente na constatação de uma exacerbada coerção da palavra, sob transferência. A palavra numa relação simbólica faz liga, faz milagres!

Se a menina apresenta um sintoma de bulimia ou anorexia... Se o garoto está quieto demais, numa inibição constrangedora... Se a criança apresenta uma depressão ou uma fobia... Se o garotinho, rotulado em sua hiperatividade, cria problemas na escola... A tese de Freud é que devemos procurar escutar a voz do sintoma de um sujeito em sofrimento. A verdade de um sujeito particular está aí, nesse sofrimento. O não-acolhimento ou um simples tamponamento com seja lá o que for poderá induzir o surgimento de uma sintomática mais grave e, às vezes, no próprio corpo. Vamos acolher com uma escuta e pagar para ver o que o sujeito tem a dizer a partir da sua implicação em seu sofrimento, que é a sua única voz no momento. Há que se escutar de que lugar, de uma subjetividade, o sujeito está querendo falar.

Certamente que alguém que está em pleno uso ou abuso de drogas, ou aprisionado neste ou naquele sintoma, quer sinalizar alguma coisa. A criança que está em sofrimento pode estar dizendo alguma coisa para além do que ela demonstra, com esta ou aquela expressão de dor. Há um saber que não se sabe e que habita os bastidores daquilo que a impulsiona dizer para o Outro, seu pai, sua mãe, um psicanalista. Neste ponto lógico, por onde se instala a queixa de um sofrimento, há um saber que não se sabe e que somente ela é quem sabe sem saber que sabe – a partir de uma dor de cabeça persistente, por exemplo – mas que, ao falar, ela sabe! O saber inconsciente –, um saber sem sujeito, portanto. A dor certamente poderá ir embora. Palavras que serão, portanto, bem-ditas!

Não faz muito tempo, uma jovem mãe telefona, para retomar sua análise, que havia interrompido há pouco mais de um ano. Ao mesmo tempo, relata o drama e o sofrimento que ela e seu marido estavam passando. Aos prantos, ela fala do sofrimento de sua filha de cinco anos de idade, que apresentava um sintoma de dor de cabeça forte e intermitente. Com isso, essa menina conseguiu paralisar a vida da família. Após a intervenção de alguns médicos, a criança é encaminhada a uma neuropediatra que diagnostica, de saída, como um caso grave de enxaqueca. Iniciou tratamento com antidepressivos e analgésicos e logo marcou uma intervenção para o dia seguinte, que constava, entre outras coisas, da introdução de medicação endovenosa. O analista solicita a permissão do casal para falar com a médica. Ao lado disso pediu que não dessem mais nenhuma medicação para a criança e, logo, indicou uma psicanálise para a menina. Ao conversar com a especialista, ele escutou desta, em cinco minutos de conversa, trinta vezes a palavra enxaqueca. Esta especialista carregava um diagnóstico pronto na sua cabeça e não fazia outra coisa senão diagnosticar enxaquecas por aí. Após alguns meses de análise a dor de cabeça da menina desaparece e dá lugar a um medo de dormir sozinha. Ela só conseguia dormir se estivesse junto do casal, pai e mãe. Este sintoma da dor de cabeça já era um velho companheiro da sua mãe que, a cada vez que menstruava, reagia com uma forte dor de cabeça. Esta mãe, quando criança, se masturbava muito, e esta descoberta prematura da sexualidade perturbava seu pai, que dizia: esta menina ainda vai me dar muita dor de cabeça. Aos sete anos, enquanto ela dormia, o pai morreu de uma morte abrupta. Isto causou danos terríveis no transcorrer de sua vida e, por sua vez, a criança atualizou, no real, uma verdade sobre o sintoma dessa mãe. O movimento noturno da menina em direção ao quarto dos pais estava a serviço de uma recusa do luto que esta mãe não podia realizar. Assim que ela iniciou o trabalho de construção do luto desse pai, mãe e filha ficaram bem.

É realmente das palavras bem-ditas que poderá nascer um trabalho de associação livre na fundação deste novo método, como a única maneira de colocar o paciente no trabalho analítico, de fazê-lo se implicar como sujeito do seu desejo. O nascimento de um trabalho analítico irrompe no cenário mundial das ciências e do campo do saber como uma nova e autêntica abordagem do homem, pelo viés de um novo e autentico método analítico. A cura pela palavra, que já estava em cena no trabalho de Freud – como também em Breuer e outros, quando de uma utilização do método catártico e de uma sugestão hipnótica –, ainda não é a psicanálise enquanto descoberta freudiana. Ela começa por uma invenção na prática, iniciada por uma paciente. Como sempre Freud está aberto a se fazer ensinar. Assim, a propósito da etiologia sexual da histeria, Freud conta que, bem antes de ele mesmo ter levantado a hipótese, três personalidades eminentes do mundo médico lhe haviam “entregue um conhecimento que eles mesmos, estritamente falando, não possuíam”. Breuer não lhe confiava que, nesses casos, se tratava “sempre de segredos de alcova”, Charcot, que “em casos semelhantes, sempre é a coisa genital”, e Chobrak, que a prescrição apropriada era “Penis normalis dosim repetatur?!”.

O verdadeiro gesto amoroso de Freud foi permitir ao ser humano testemunhar que ao falar ele diz bem mais do que aquilo que queria dizer, posto que há alguma coisa que o próprio sujeito desconhece e que é de toda uma riqueza que se contrapõe à sua miséria existencial. Não apenas o sujeito não diz o que quer, mas, naquilo que diz, diz outra coisa que não o que pensava dizer. Este elemento surpresivo – sua hipótese do inconsciente – se configurará como a hóstia sagrada de uma verdadeira descoberta freudiana.


 
 
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