| Na espera da autorização de partida
Tenho algumas semanas particularmente desfavoráveis atrás de mim. Há quatro semanas, uma de minhas operações habituais, depois dores raramente fortes, de modo que tive de suspender meu trabalho por doze dias e ficar deitado com dores e bolsas de água quente no divã, que é destinado a outros. Mal tinha recomeçado o trabalho e sobrevieram os acontecimentos que, história do mundo num copo d’água, mudaram nossas existências. Pude ouvir no rádio o anúncio dos combates bem como a recusa deles, a alegria depois a contra-alegria. Ao longo desse eventful week, os últimos de meus pouco numerosos pacientes me abandonaram. Ainda não estou completamente livre das dores, não posso trabalhar em nada, logo não faço absolutamente nada. Nossa casa está naturalmente muito agitada, amigos se inquietam com nossa situação […].
Carta a Arnold Zweig de 21.3.1938
Escrevo-lhe sem razão particular porque permaneço sentado aqui, sem forças, sem atividade, enquanto Anna toma todas as providências, em todos os escritórios e cuida de tudo. Já se pode “ver a viagem”. Só estamos esperando o “certificado de não-oposição” dos impostos, que esperamos receber daqui a uma semana [...].
Duas esperanças subsistem nestes tristes dias: revê-los todos reunidos e “morrer livres”. Às vezes me comparo ao velho Jacob que foi levado ao Egito por seus filhos quando estava muito idoso, […]. Esperemos que um Êxodo do Egito não se seguirá como outrora. É tempo para Ahasvérus encontrar repouso em algum lugar.
Carta a Ernst Freud de 12.5.1938
Num certo sentido, tudo é irreal, não estamos mais aqui, e ainda não estamos lá; os pensamentos flutuam, daqui, dali entre a Berggasse e Elsworthy Road.
Carta a Minna Bernays de 26.5.1938 |